Os desafios do Sistema B no Brasil e no Nordeste

Movimento quer chegar em 2023 a 300 empresas certificadas do ponto de vista sustentável, na ótica da economia, com impactos socioambiental positivos. Para 2030, a meta é atingir 1000 empresas em todo o Brasil.

 

“Nossa visão é que nosso sistema econômico se torne cada vez mais inclusivo, equitativo e regenerativo, e que modelos de negócio sustentáveis se tornem a regra”, Rodrigo Gaspar, gerente de Programas

 

Revista Nordeste – Temos um case regional, aqui de Pernambuco, o da marca de vestuário Refazenda, que recentemente recebeu o selo de certificação pelo Sistema B, além de outros selos como a 2ª marca de moda associada ao Movimento Capitalismo Consciente no Brasil. Teríamos um retrato desse setor têxtil aqui no Brasil? No escopo de empresas B?

Rodrigo Gaspar- São mais de 20 Empresas B do segmento da moda no Brasil – que engloba a indústria têxtil, além dos mercados de vestuários e acessórios. Um movimento que gera poder de influenciar toda uma cadeia de fornecedores e um mercado de grande importância para o país. Estas empresas estão colocando um desafio imenso para as demais, porque elas mostram que o padrão do mercado de moda pode ser diferente. A Refazenda se junta a empresas como Reserva, Cia. Hering, Pantys, My Basic e Insecta Shoes.

Revista Nordeste – Em nossa entrevista, constatamos que a participação da Região Nordeste e também do Norte do país, ainda é mínima se compararmos com as regiões Sul e Sudeste. Teríamos como mensurar? Especificamente, aqui no Nordeste, como se encontra esse cenário?

Rodrigo Gaspar – Atualmente temos 12 Empresas B na região Nordeste (7 BA, 2 PE, 2 CE, 1 AL) + 2 Empresas B na região Norte (1 PA e 1 TO). Somando as 2 regiões, temos 6% da Comunidade das Empresas B nestas regiões. Um número muito pequeno e que com intencionalidade aumentaremos nos próximos anos. Hoje temos uma área de Programas do Sistema B Brasil, que conta com 7 Especialistas espalhados pelo país e 3 deles se encontram no Nordeste (PE, CE e BA), além de uma estagiária em São Luis – MA. Esta área é responsável por expandir o conhecimento para empresas que buscam descobrir mais sobre a mensuração de impacto e esperamos que desta forma nos próximos anos o número de Empresas B Certificadas cresça exponencialmente.

Revista Nordeste – Quais os principais segmentos que já percebem a importância de ter uma certificação do Sistema B? Ou seja, quais setores da economia já concebem ter lucro pensando em menores danos socioambientais?

Rodrigo Gaspar- Olhando para o nosso patamar global, estamos em 156 indústrias espalhadas por 83 países nos 5 continentes. Ou seja, podemos afirmar, sem sombra de dúvidas, que consideramos empresas de impacto em todas estas áreas. No Brasil temos empresas da moda de grande porte como a Cia. Hering e Reserva, e outras em destaque como a MOVIN, EcoSimple Tecidos Sustentáveis, Florita Beachwear, Herself, Timirim e Bemglô, que vem colocando o Triplo Impacto (social, ambiental e econômico) de forma central na estratégia dos negócios, provando que é possível ter lucro e gerar impacto positivo.

Revista Nordeste- Em valor agregado, para uma empresa, o que significa ser uma empresa B certificada? Por exemplo, mais facilidades para receber recursos de Fundações Internacionais. Poderia nos explicar …

Rodrigo Gaspar- Ser uma Empresa B Certificada é redefinir a medida de sucesso para além do lucro gerado, buscando sempre equilibrar retorno financeiro com impacto positivo para a sociedade e o planeta. A certificação prevê que uma empresa gere impacto socioambiental positivo no curso da atividade econômica, tenha instrumentos de governança e esteja comprometida com a transparência do seu impacto.

Quando falamos em benefícios podemos listar que empresas que seguem esta direção tem: a) Melhoria na gestão e governança (Avaliação de Impacto B apoia plano de desenvolvimento contínuo de práticas e vínculo da responsabilidade fiduciária com impacto positivo); b) Atração de Talento (77% da geração milênio busca propósito de impacto positivo em sua carreira – Deloitte Millennial Survey); c) Ser parte de uma comunidade de líderes (ao se tornar Empresa B, a empresa passa a compor uma comunidade que compartilha uma visão comum, de troca e fortalecimento mútuo); d) Diálogo com ESG

Métricas críveis, comparáveis e verificáveis de impacto social e ambiental; e) Posicionamento (sinalização para fornecedores, colaboradores, investidores e consumidores).

Revista Nordeste – O processo para conseguir uma certificação pelo Sistema B requer uma auditoria minuciosa em toda a jornada da empresa. Quais seriam as etapas desses processos?

Rodrigo Gaspar – Para se tornar uma Empresa B é necessário preencher a Avaliação de Impacto B (BIA), nossa ferramenta gratuita, online e confidencial, criada para ajudar a medir e gerenciar o impacto positivo dos negócios. A Avaliação inclui uma análise detalhada de como a empresa interage com diferentes públicos de interesse, passando pelas estruturas de governança da organização, atuação e satisfação dos colaboradores, relacionamento com clientes, fornecedores, até a mensuração dos impactos causados pela empresa ao meio ambiente e comunidade na qual operam. Preenchendo 100% da BIA, a empresa deve enviar sua avaliação para a revisão, (nesta fase serão confirmadas informações relevantes declaradas pela empresa no questionário preenchido, como setor, tamanho, indústria, modelo de negócio de impacto e áreas de maior pontuação, e em seguida ela vai para a etapa de Verificação, onde são solicitados documentos e evidências que comprovem práticas, políticas e processos internos declarados pela empresa. Confirmando o atingimento de pelo menos 80 pontos a empresa se torna elegível à Certificação.

Revista Nordeste – Na visão da instituição, o que considera ser o maior gargalo no Brasil e no Nordeste para as empresas serem certificadas como socialmente justas e ambientalmente corretas?

Rodrigo Gaspar – A expansão do Sistema B no Brasil vem acontecendo com o acesso cada vez maior da temática ESG das empresas. Vemos o Nordeste buscando cada vez mais este conhecimento e procurando ferramentas para dar os passos necessários para mensurar seu impacto. Um dos maiores gargalos é a falta de conhecimento sobre o que é ser uma empresa verdadeiramente sustentável, e é neste campo que atuamos por meio da promoção de padrões de impacto socioambiental e da divulgação da ferramenta de Avaliação de Impacto B como forma de auxiliar as empresas na jornada ESG.

Revista Nordeste – Mesmo com a pandemia, houve crescimento de mais empresas “B” no Brasil e no Nordeste? Quantas empresas no Brasil?

Rodrigo Gaspar- Sim. Desde o início da pandemia dobramos o número de Empresas B Certificadas no Brasil e também o número de empresas que mesmo sem iniciarem a Certificação utilizaram a Avaliação de Impacto B para medir seu impacto socioambiental.

Revista Nordeste – Qual a expectativa para os próximos anos? O que podemos esperar desse movimento e qual recado a instituição gostaria de deixar registrado para aqueles que percorrem o ciclo de evolução de uma economia tradicional para uma economia socialmente e ecologicamente sustentável?

Rodrigo Gaspar-Temos uma expectativa de atingirmos o número de 300 Empresas B em 2023 e chegar a 1.000 antes de 2030. Esperamos que a rede de Empresas B seja cada vez mais diversa e distribuída pelo Brasil. Nossa visão é que nosso sistema econômico se torne cada vez mais inclusivo, equitativo e regenerativo, e que modelos de negócio sustentáveis se tornem a regra, trazendo o protagonismo de transformação das empresas no planeta e dando um novo significado ao que é sucesso na economia.

 

*Entrevista exclusiva publicada originalmente na edição 186, de Julho, da Revista Nordeste, produzida e escrita por Luciana Leão 

 

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Luciana Leão

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