Nesta entrevista publicada na nova edição da Revista NORDESTE, a diretora de Geociências do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) analisa, com detalhes, os efeitos das Mudanças Climáticas no Brasil e no Mundo diante do modelo de desenvolvimento urbano, rural e suas implicações para a sociedade.
Por Luciana Leão
É chegada a hora de transformar oportunidades, mesmo que em situações dramáticas, como as recentes enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul e em outras partes do mundo, para um “repensar” nas estruturas das cidades, das políticas públicas e privadas no Brasil e, acima de tudo como o modelo atual de consumo inconsciente e a falta de zelo para com os ecossistemas atuam de forma mais agressiva, no planeta Terra, de forma gradual e recorrente nas últimas décadas.
Para falar sobre a temática, a NORDESTE entrevistou a diretora de Geociências, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) geógrafa, Mestre e Doutora em Geografia Econômica, Ivone Batista, com ênfase em Gestão de Território pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de integrar o Grupo de Especialistas em Estatísticas Ambientais e Mudanças Climáticas (EGES/UNSD- em inglês: Expert Group on Environment Statistics-) do qual o IBGE participa.
Apenas como referência, o grupo EGES/UNSD busca definir um quadro que interrelacione os requisitos apresentados nos relatórios decorrentes do Acordo de Paris e estatísticas e indicadores que apoiem a ação da política climática, seguindo parâmetros traçados a partir de diferentes acordos e marcos de referência internacionais.
O IBGE vem participando de todos os debates do grupo de especialistas e publicará ainda este ano, com base no Global set of climate change statistics and indicators, uma publicação, o Guia de estruturação das estatísticas ambientais, focando na avaliação da cobertura das estatísticas ambientais no Brasil, com o objetivo de sintetizar princípios para o desenvolvimento de uma agenda de estatísticas ambientais e de mudanças climáticas no país.
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Revista NORDESTE – Como especialista em Geociências, nossa primeira pergunta é o que podemos aguardar para semear um futuro nesse ambiente, ainda vivo, mesmo que enfurecido, às futuras gerações?
IVONE BATISTA – Eu considero um equívoco acreditar que o meio ambiente está se enfurecendo ou se “vingando” da sociedade humana. As características atmosféricas encontram-se diretamente ligadas à existência e à articulação de todas as outras características naturais da superfície terrestre. O que isso quer dizer: O clima é influenciado pelos elementos da paisagem, da vegetação, dos processos geológicos, pela dinâmica hídrica, pela cobertura vegetal. Do mesmo modo, os processos e a dinâmica ambiental são influenciados pelo clima. O Meio ambiente funciona como um Sistema. Um Geossistema.
NORDESTE – Portanto, o que ocorre, neste momento, seriam fatores inter relacionados?
IVONE BATISTA – São fatores interconectados. Um influencia o outro. Para o estudo do clima, os fatores climáticos, normalmente descritos de forma itemizada (as massas de ar, as correntes marítimas, as características e a disposição do relevo) são hoje entendidos como compondo um SISTEMA.
A cobertura vegetal é responsável pela contenção ou absorção dos raios solares, minimizando os seus efeitos. Ela propicia maior umidade no ar por conta da evapotranspiração, o que ajuda a diminuir as temperaturas e elevar os índices de chuva. Assim parte da ideia de que o conjunto apresenta características que só podem ser compreendidas no todo, não sendo encontrada em nenhum dos elementos isolados.
O Geossistema segue essa mesma proposição, onde a estrutura das partes é concebida em torno dos sistemas da Terra envolvendo o ar, a água, o solo e os organismos vivos.
NORDESTE – Ou seja, podemos entender que o ser humano como parte desse sistema, na atualidade e tempos atrás, são co-responsáveis pela intercorrências das mudanças climáticas?
IVONE BATISTA – Os seres humanos, elemento do Geossistema, a partir do modo de produção e consumo adotado passa a ocasionar alterações importantes nos processos atmosféricos e biosféricos.
As atividades humanas, especificamente associadas ao desenvolvimento industrial e às altas taxas de produção e consumo vinculadas ao uso intenso de combustíveis fósseis, atuam sobre esse sistema, interferindo nos ciclos biogeoquímicos. A ruptura do padrão climático, está associada ao impacto das atividades humanas, apontada como causa da interferência na regulação global dos ecossistemas.
NORDESTE – A ciência é um dos instrumentos mais eficientes e assertivos para nortear as políticas públicas de um país. Qual sua análise em meio a um descaso consciente desse modelo de desenvolvimento ainda persistente no Brasil?
IVONE BATISTA – No que se refere a meteorologia e a climatologia, a ciência nos permite compreender essa dinâmica sistêmica do ambiente, além de apontar, descrever e analisar os impactos frente à constatação de emergência climática que vivemos. São elementos fundamentais para o debate hoje, as bases científicas, a apresentação de evidência do uso excessivo dos ecossistemas naturais, os impactos sociais e econômicos das mudanças nas dinâmicas do clima; e a necessidade de proposições e ações em diferentes escalas, do local ao global.
Entendendo as mudanças climáticas como as transformações a longo prazo nos padrões climáticos, é importante salientar que eventos naturais extremos, ou seja, aqueles que afetam diretamente o funcionamento normal de uma comunidade, causando danos materiais, ao ambiente e à saúde da população sempre existiram. Os fenômenos naturais fazem parte da dinâmica do sistema terrestre. Mas constituem risco quando esses eventos avançam sobre um sistema social, acarretando uma situação potencial de prejuízo para as pessoas e bens. A ciência tem seu papel fundamental em desmistificar e apresentar elementos de compreensão para o que vem ocorrendo no mundo.
NORDESTE- Nesse sentido, as políticas públicas existentes ou não, compõem para uma maior ou menor intensidade desses fenômenos?
IVONE BATISTA – Um fenômeno climático de mesma magnitude pode deflagrar ou não um desastre. Porque o desastre está associado à probabilidade de um fenômeno ocorrer em relação à exposição da população, das atividades econômicas e da infraestrutura presente em áreas sensíveis.
Cabe então às políticas públicas ações em diferentes escalas para minimizar as consequências dos impactos dos eventos naturais extremos sobre ocupação humana de uma área. Tanto no âmbito do regramento de uso do recursos naturais para limitar potenciais motivadores que alteram o balanço energético do sistema climático, como ações nacionais, regionais e locais para mitigar os efeitos dos eventos extremos assim como propor ação de adaptação, iniciativas e medidas para reduzir a vulnerabilidade dos sistemas naturais e humanos contra os efeitos dos recorrentes eventos naturais extremos.
NORDESTE – Quais elementos, a senhora elenca, enquanto estudiosa sobre o espaço de nosso território nacional e regional?
IVONE BATISTA – O uso excessivo e intensivo dos recursos naturais do planeta, e especificamente em nosso país, acende um alerta sobre o limite de resiliência do meio ambiente. Pesquisas empíricas e outras baseadas em modelos indicam que a floresta amazônica influencia os padrões espaço-temporais e a quantidade de chuva, não só na região mais em todo o país, e mesmo no continente.
No Brasil foram em diferentes períodos da história apresentadas vias de desenvolvimento regionais que não se sustentam ambientalmente, seja pela exploração intensiva de recursos específicos seja pelo uso extensivo de terra. É necessária, por exemplo, a adoção da opção de aplicação intensiva de tecnologia, por exemplo, na agricultura. Existem possibilidades de ampliação de produtividade sem ampliação da área de cultivo, a partir da melhoria de sementes, com seleções naturais, e ampliação da qualidade dos solos.

Entre 2000 e 2020, a área agrícola do país cresceu 230 mil km² aproximadamente e a vegetação natural diminuiu cerca de 513 mil km². Como será mantido esse padrão de avanço de área ocupada por pastagem e agricultura? Esse avanço ocorrido em 20 anos é ambientalmente insustentável.
NORDESTE – Em sua avaliação, o que falta ainda para que a sociedade em geral perceba a necessidade de mudança frente aos acontecimentos extremos que ocorrem em todo o mundo , não somente no Brasil, e nos países em desenvolvimento e desenvolvidos?
IVONE BATISTA – Entender a importância da manutenção dos ecossistemas, entre eles o florestal, para manutenção dos benefícios e contribuições que a natureza presta à economia e à sociedade é o primeiro passo. Entre os múltiplos serviços ecossistêmicos prestados pela florestas, entendendo-se serviços ecossistêmicos como serviços que a floresta presta à sociedade e ao equilíbrio ecológico do próprio ecossistema, a regulação das chuvas é fundamental para sustentar a agricultura na região e para além dela.
Os espaços naturais, e particularmente a Floresta, ainda são vistos muitas vezes como espaço a ser desbravado e ocupado, não compreendido como espaço de prestação de serviços e benefícios para a própria economia. Como provisão de biomassa; provisão de Produtos Florestais não madeireiros; Provisão de água; Provisão de material genético; regulação do clima; regulação dos regimes fluviais; filtragem do ar; Qualidade e retenção do solo; manutenção de Polinizadores; Manutenção de habitats; Controles de inundações. etc. São serviços ecossistêmicos. E isso tem que ser considerado no PIB ( Produto Interno Bruto, todas as riquezas produzidas pelo país).
NORDESTE – Parte dos problemas ambientais passam pelo Congresso Nacional brasileiro influenciado por setores empresariais a insistirem em políticas de desflorestamento, avanços sistêmicos em Biomas e o desmatamento. O que analisar sobre esse enfoque.

IVONE BATISTA – No Brasil se reproduz um padrão global, considerado por muitos como NATURAL, inerente à sociedade humana. Dirigir carros, andar de avião, ter casas grandes, consumir “moda”, consumir excessivamente, são vistos como elementos naturais da vida, de acordo com as normas culturais presentes na maior parte das culturas de consumo no mundo todo.
No entanto, embora pareçam “naturais”, esses padrões não são nem sustentáveis nem manifestações inatas da natureza humana. Eles se desenvolveram ao longo de séculos e estão hoje sendo reforçados e cada vez mais disseminados. As estruturas políticas são, em todo o mundo, o reflexo da desse padrão e dos arranjos sociais e econômicos deles derivados. Mas existem contradições nessa relação, que envolve o capital e a natureza, que se apresentam como os limites que a natureza sinaliza.
NORDESTE – Como se comportam essas contradições?
IVONE BATISTA – Por exemplo o lixo plástico. A quantidade de lixo, e destaque para o lixo plástico, constitui importante indicador de consumo de uma sociedade. A quantidade de lixo depende de vários fatores, sendo a renda um dos mais relevantes. A renda possui correlação positiva com a quantidade de lixo produzida. Maior renda e maior quantidade de lixo. Isso é um símbolo positivo ou negativo de uma sociedade? Combater a poluição plástica necessita de mudanças profundas nas políticas e no mercado. Mas quem puxa essas mudanças? O mercado ou os fazedores de política públicas?
A situação análoga se dá com o avanço do desmatamento. As Contas Físicas da Terra, produzida pelo IBGE em 2021 avaliou o Monitoramento da cobertura e uso da terra do Brasil, produzido pelo IBGE, no período entre 2000 e 2020. Constatou-se o avanço das pastagens sobre vegetação florestal. Ao observar as transformações de uso no período de 2000 a 2020, 64,7% das conversões de uso da terra ocorridas no País foram sobre as vegetações florestal e campestre.
Essa regressão foi decorrente especialmente do avanço da pastagem com manejo e da área agrícola. Entre 2000 e 2020, a área agrícola do país cresceu 230 mil km² aproximadamente e a vegetação natural diminuiu cerca de 513 mil km². Como será mantido esse padrão de avanço de área ocupada por pastagem e agricultura? Esse avanço ocorrido em 20 anos é ambientalmente insustentável.
NORDESTE – A senhora acredita que parte dos setores, como o Agronegócio , podem repensar seus posicionamentos danosos ao meio ambiente?
IVONE BATISTA – As alterações climáticas já são avaliadas como um dos desafios mais importantes enfrentados pela humanidade. E quando se fala de alterações na dinâmica do clima, não estamos falando que eventos extremos nunca existiram, estamos falando que a frequência com que ocorrem hoje é algo nunca visto. Então estamos falando de recorrência de eventos danosos e que colocam em xeque a manutenção da própria vida das populações. Em 2021 a União Europeia lançou um plano para combater as mudanças climáticas que envolviam por exemplo:
Limites mais rígidos para as emissões produzidas por automóveis
Criação de imposto sobre combustível para a aviação
Metas mais ambiciosas para a expansão do uso das energias renováveis
Mudanças e reformas em edifícios para que se adequem às necessidades energéticas, de energia sustentável.
É imprescindível que todos os setores da economia, e a sociedade como um todo, reveja padrões de produção, de consumo e de relação com o ambiente e estabeleça limites e regras rígidas, mas isso precisa ser visto como um pacto de todos, não como algo imposto por A ou B, para se estabelecer parâmetros de uso dos recursos naturais que levem em conta os limites de resiliência da natureza, entendendo a sociedade humana como parte desse sistema.
Os impactos sociais e econômicos dos eventos extremos já são sentidos por todos. Formas mais sustentáveis de uso da terra (menos extensivas) e de manutenção de ecossistemas, florestais e não florestais, como o Bioma Cerrado, Pantanal e o sistema Costeiro Marinho, são essenciais para o equilíbrio da dinâmica hídrica e, por conseguinte, a dinâmica atmosférica.
*O Escritório de Jornalismo é um colaborador em edição e conteúdo para a a REVISTA NORDESTE.




