Agricultura urbana pode contribuir para segurança alimentar nas cidades em tempos de crise climática

Novo estudo do Escolhas traz recomendações para o Governo Federal e dados inéditos sobre potencial da agricultura urbana e periurbana em Curitiba, Recife e Rio de Janeiro.

 

Em tempos de crise climática, a agricultura praticada nos centros urbanos precisa sair da invisibilidade e se posicionar como uma das estratégias de promoção da segurança alimentar nas cidades.

Esse é o alerta feito pelo novo estudo do Instituto Escolhas, Como o Governo Federal pode apoiar os municípios no fomento à produção local de alimentos? que traz recomendações para a gestão pública nacional – considerando a implementação do Programa Nacional de Agricultura Urbana e Periurbana (lançado em setembro) – além de dados inéditos sobre o potencial de produção de alimentos e seus benefícios em três capitais brasileiras – Curitiba, Recife e Rio de Janeiro.

Juliana Luiz, gerente de Projetos do Instituto Escolhas. Foto: Divulgação

A Revista NORDESTE entrevistou a gerente de Projetos do Instituto Escolhas, Juliana Luiz, que avalia ser o modelo de agricultura urbana uma oportunidade para apoiar a escassez de alimentos e tornar os ambientes das cidades mais verdes.

NORDESTE- Como a senhora evidencia tal realidade nas capitais nordestinas no sentido de ampliar a demanda de acesso a recursos e uso de áreas por parte das famílias?

JULIANA LUIZ – Para a região Nordeste, diversos estudos meteorológicos já vêm apontando aumento das mudanças na frequência, intensidade e duração a eventos relacionados a extremos climáticos como é o caso das ondas de calor, secas e inundações. Esses eventos geram impactos negativos no dia a dia, mas também impactam muito na produção de alimentos, e, consequentemente, geram impactos no abastecimento e disponibilidade para a população.

Então, quando falamos em fomentar a produção de alimentos perto dos grandes polos consumidores, com destaque para as capitais e regiões metropolitanas, nós estamos lançando desafios de construir ambientes urbanos mais verdes, sustentáveis, resilientes e também a possibilidade de uma alimentação mais saudável, com frutas, legumes e frutas para as famílias nordestinas

NORDESTE- No caso do Recife,quais experiências exitosas elencaria como modelos? Houve apoio por parte dos gestores públicos ou ainda podemos considerar incipientes tais demandas?

JULIANA LUIZ – Além do Recife, o estudo conduzido também teve como parceiras as cidades de Curitiba, Rio de Janeiro e Recife. E, um dos fatores dessa seleção foi o fato das três cidades já terem incorporado o tema da agricultura urbana de maneira institucional. No Recife, eu me refiro à Secretaria Executiva de Agricultura Urbana, criada em 2021. E, para essa institucionalidade recente no Recife tende a ser uma virada de chave para o tema avançar nos municípios. Especialmente, porque a agenda da agricultura urbana ainda é muito inviabilizada nas cidades, mesmo sendo o município a unidade administrativa mais próxima onde ocorre a agricultura urbana.

A responsabilidade dos municípios

O município também é um ente responsável pelo uso do espaço urbano. Então, trazer o tema da agricultura urbana para dentro das prefeituras e das políticas públicas municipais é um importante passo como já realizado pelo Recife. Cabe para os próximos passos seguir mapeando as especificidades da agricultura urbana existente no território, reconhecê-la como prática socioeconômica relevante, incorporar tal atividade na lógica para organizar a cidade e também atrelar à agricultura urbana a outras políticas e iniciativas municipais, sobretudo àquelas voltadas para segurança alimentar nutricional e geração de renda.

NORDESTE- Em outros países, há uma cultura de se ter suas próprias plantações, hortas, quintais produtivos. Como o Brasil e o Nordeste se insere nessa prática?

JULIANA LUIZ – Assim como diferentes experiências internacionais, o Brasil tem inúmeras famílias e comunidades produzindo alimentos nas cidades, seja em seus quintais, ou em áreas coletivas. Segundo o Censo Agropecuário de 2017, Recife tem mais de 800 hectares de estabelecimentos agropecuários e são 100 o número de estabelecimentos que produzem hortaliças e esses 100 têm geração de receita de R$ 1 milhão ao ano, com a venda desses legumes e verduras produzidos.

Produção de alimentos

O estudo mapeou outras áreas com potenciais para produção de alimentos na cidade. E com o uso de apenas 5% dessas áreas em potencial, ociosas, a probabilidade de receita com a venda chegaria, segundo nossos cálculos, a R$ 8 milhões ao ano. Trata-se portanto de uma estratégia socialmente relevante, mas sobretudo economicamente viável e os caminhos para esse avanço incluem desde a produção local, consumo de alimentos, até a promoção da segurança alimentar, educação alimentar e conexão com políticas de geração de renda

NORDESTE – Quais foram as áreas mapeadas pelo estudo na capital pernambucana e se há a intenção de se ampliar para outras capitais do Nordeste?

JULIANA LUIZ – Por imagens de satélite, o estudo do Instituto Escolhas mapeou áreas ociosas e subutilizadas. Essas áreas que podem ser tanto públicas como privadas representam 404 hectares e estão localizadas em 71 dos 94 bairros da cidade. Se só 5% desses espaços fossem dedicados à produção de alimentos, estamos falando de mais de mil toneladas de legumes e verduras disponíveis por ano.

Essa quantidade tem o potencial de abastecimento de mais de 60 mil recifenses, o que representa 18% das pessoas inscritas em situação de pobreza no CadÚnico, cadastro federal para apoio a programas e políticas sociais.Se a gente olhar pelo viés da geração de renda, esses mesmo 5% têm potencial de geração de renda para mais de 400 pessoas. A incorporação da agenda pelos municípios, portanto, deve sim ser comentada por mais municípios, sempre atrelando um desenvolvimento mais sustentável e saudável ao desenvolvimento urbano.

Curitiba e Rio de Janeiro

Na capital paranaense, 96% das pessoas em situação de pobreza no município (de um total de 143.835 pessoas) poderiam ser abastecidas por ano com 4.859 toneladas de alimentos produzidos em apenas 5% das áreas potenciais mapeadas pelo estudo.

Já o Rio de Janeiro enfrenta desafio maior, por ter mais de 1 milhão de pessoas inscritas no CadÚnico em situação de pobreza. Para atendimento integral desse contingente, seria necessária a ocupação de 74% das áreas ociosas mapeadas.

*Conteúdo especial produzido pelo EJ para edição 203, da Revista Nordeste 

O EJ é colaborador para produção e edição de conteúdos da Nordeste.

 

 

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Luciana Leão

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