Refazenda, marca pernambucana de vestuário, é a única no Norte e Nordeste como empresa certificada “B”

Região Norte e Nordeste ainda têm um caminho longo a percorrer para tornar suas empresas sustentáveis

 

Em tempos de economia sustentável, de relevância e urgência de práticas empresariais e governamentais sob os pilares da estratégia ESG – sigla de Environmental, Social and Governance – ou, em português, ambiental, social e governança, a nova ordem mundial conquista empresas de diversos ramos e tamanhos e consolida uma tendência já em curso em vários países no mundo. No Brasil, no Nordeste, entretanto, ainda há muitos desafios a percorrer.

Um dos principais termômetros que podem medir a aderência às práticas de ESG no Brasil, saindo da teoria e mostrando na prática é a pouca participação de empresas de todos os portes e setores para introduzir em seu modelo de negócio, a economia circular, onde o que se produz retorna ao ambiente de consumo de forma reutilizada. Alguns índices mostram isso, como os negócios que conseguiram ser Empresas B Certificadas e que introduziram uma governança inteligente.

Sistema B

E o que vem a ser Empresas B Certificadas? Na definição geral são corporações de portes diversos, representantes do movimento global liderado pelo B Lab, onde a premissa principal é que o lucro exista, mas com impactos socioambientais positivos. Em outras palavras, que usam os seus negócios para a construção de um sistema econômico mais inclusivo, equitativo e regenerativo para as pessoas e para o planeta.

Fundado em 2011, o Sistema B International supervisiona o crescimento do movimento em colaboração com parceiros nacionais que atuam ativamente no Chile, Argentina, Colômbia, Brasil, México, Peru, Paraguai, Equador, Uruguai, América Central e Caribe.

No mundo, são mais de 5 mil Empresas B. No Brasil, das 233 empresas certificadas a maioria concentra-se na Região Sudeste, 81%; 10,68% na Região Sul; 4,4% na Região Nordeste; 2.9% na Região Centro-Oeste e, apenas, 0,97% na Região Norte.

Daí pode vir a primeira dúvida. Por que a importância de ter a certificação como uma Empresa B? Empresas B são companhias que, além de produzir, lucrar e movimentar a economia, oferecem benefícios sociais e ambientais – daí o “B” conferido como selo de qualidade a essas iniciativas.

O exemplo da marca Patagônia

Marcos Queiroz, diretor de Soluções, ao lado sua mãe estilista e fundadora da Refazenda, Magna Coeli /Foto: Luciana Leão

Marcos Queiroz, diretor de Soluções da Refazenda, marca genuinamente nordestina, teve conhecimento do Sistema B por meio de uma outra marca, a Patagônia, nos Estados Unidos, fundada na Califórnia pelo surfista e ambientalista Yvon Chouinard. Até os dias atuais, a Patagônia tem um olhar de sustentabilidade para a cadeia toda. A preocupação vai desde a plantação nos campos de algodão até o bem-estar dos funcionários e com toda a cadeia de produção.

“Verifiquei que a marca Patagonia olhava um pouco mais, não somente o lucro.Temos ainda a Mãe Terra, de alimentos, a Insecta, de Porto Alegre, que faz sapatos, entre outras mais. Foi quando nos interessou em nos engajar nesse movimento B”, revela.

No Brasil, a organização responsável por atribuir o selo de empresa B a corporações é o Sistema B, que define as companhias certificadas como “negócios que atendem aos mais altos padrões de desempenho social e ambiental e a critérios de transparência e de responsabilidade legal em equilibrar lucro e propósito”.

A análise é realizada em cinco áreas: Governança, Trabalhadores, Clientes, Comunidade e Meio Ambiente. Ou seja, o círculo da economia completo com envolvimento de seus diferentes públicos, mas com uma visão propositiva sobre o ecossistema social, ambiental e de governança.

Um case pra lá de nordestino: Refazenda

A Revista Nordeste foi em busca de personagens que evidenciam essa transformação, ainda que tímida na Região, apenas 4,4% do total no Brasil, e entrevistou, com exclusividade, Magna Coeli, CEO, estilista e fundadora da Refazenda, única marca no Norte e Nordeste, no segmento de indústria têxtil representante de Empresas B Certificadas no Brasil.

Segundo dados da ONU Meio Ambiente, o segmento têxtil é o segundo que mais consome água e emite até 10% dos gases estufa do planeta e enfrenta o desafio de desenvolver uma cadeia produtiva limpa e sustentável. Hoje, segundo a ONU, estima-se que o setor perde cerca de US$ 500 bilhões com o descarte de roupas que são destinados a aterros e não são recicladas, sem falar na liberação de 500 mil toneladas de microfibras sintéticas no oceanos todos os anos, além de poluir o solo a partir do uso de pesticidas no plantio de fibras naturais.

DNA de sustentabilidade

Desde a sua concepção, a marca Refazenda carrega em seu DNA o ideal da sustentabilidade. Tudo começou em 1990, quando, incomodada com o formato como então se conhecia a indústria do vestuário, Magna Coeli pensou num modelo de negócio vanguardista, mesmo para os tempos de hoje.

A ideia da estilista foi criar um novo estilo de comportamento, aliado ao planejamento de todo o material usado no ciclo, inclusive as até então indesejadas “sobras, retalhos”. Mas não era simplesmente reciclar: um modelo de produção sustentável, como o próprio conceito sugere, precisava se bastar em todos os processos da marca.

Como ela mesmo diz: “Era necessário fechar o ciclo, lançar mão de uma economia genuinamente circular, em que 100% da matéria-prima fosse utilizada dentro do seu propósito de existir, selando parcerias com artesãos e pequenos produtores locais, agregando, assim, alta qualidade, design inovador, conteúdo técnico-cultural, atemporalidade e afetividade”.

Nesses 32 anos de história, a Refazenda se posiciona não como um negócio de moda, mas como uma empresa de comportamento que se comunica por meio de produtos sustentáveis e de alto valor agregado, influenciando seus consumidores a se estabelecerem como cidadãos do mundo, numa expressão fiel de pertencimento ao planeta.

“Quando iniciei na camisaria, na Vagamundo, me incomodava muito o fato de ver resíduos serem descartados. Foi quando comecei a produzir artigos para cama, mesa e banho e não tinha ainda a marca Refazenda. Era uma renda paralela, com apelo afetivo, mas ao costurar mais, ao se dedicar ao produto e se apegar ao que você produz você cria essa afetividade e as pessoas se apaixonam. Achava o mercado de roupas muito marcado. Só existia naquela época a produção em escala. Mas, a moda autoral só veio a existir muito tempo depois”, lembra a estilista.

Enquanto o mundo gritava pela ecologia, lembra Magna, o Brasil fechava os olhos para a transformação. “Isso me incomodava. Tenho uma formação em serviço social, e andava pelas favelas e o quanto via esses espaços transbordando de lixo. Isso me incomodava. Eu fazia minha roupa, de minhas amigas, eu queria mudar o mundo. E como sou altamente idealista percebi que minha missão era gerar empregos. Foi conciliando o lúdico com o filosófico que comecei a transformar o que era hobby, na década de 80, em um negócio sustentável, a Refazenda”.

Quando acontece a certificação

Paraibana, de Campina Grande, adotou Recife como sua cidade para os negócios e criar sua família. Filha do alfaiate João Rodrigues e de Marina Donato, profissional de corte e costura, teve sua criação dentro de um ambiente de ateliê de costura, convivendo com resíduos de roupas.

“Desde jovem, desenvolvi um olhar para o reaproveitamento de tudo que era chamado de lixo, mas não era. Esse chamado me levou a querer mudar o mundo, mudando a moda”, revela. Foi assim que, desde 1990 a Refazenda trabalha para desenvolver uma cadeia de produção justa, que evita a todo custo que qualquer resíduo seja descartado de forma irregular. “Aqui transformamos resíduos em negócios”.

Estrada longa

Ser uma empresa do Sistema B Certificada não é um processo fácil. Ao contrário. Requer documentação comprobatória, sapiência, idealismo, perseverança. Mas, acima de tudo dedicaçao, afetividade pelo que se propõe, afinal, no mundo ainda existem muitas marcas que se intitulam sustentáveis e, na verdade, são “greenwashing” ou seja, apenas vivem de fachadas.

Então, para que os critérios já abordados anteriormente, quais sejam, Governança, Trabalhadores, Clientes, Comunidade e Meio Ambiente é realizada uma auditoria minuciosa pelos representantes do Sistema B no Brasil, seguindo todas as etapas desenvolvidas e determinadas pela certificação internacional, desde o início da cadeia produtiva até o destino final.

A etapa do corte é muito importante para que seja utilizada todo o tecido/ Foto: Luciana Leão

“Sermos uma empresa B Certificada nos ampliou a visão para o futuro. O nível de network e possibilidades maiores de negócios em todo o mundo, por que já possuímos os requisitos e critérios exigidos pelo mercado. As certificações ajudam a pensar em voos maiores, e não ficar restrito a nossa região. Teoricamente, ficou mais coerente entrarmos em contato com empresas em outros países por sermos “B” e conseguimos manter o diferencial do mercado”, avalia o diretor de Soluções Marcos Queiroz.

Relatório de Impacto

No setor têxtil, a Refazenda foi a 1ª marca brasileira a se tornar case, segundo a ONU Meio Ambiente.Também foi a segunda marca de moda brasileira associada ao Movimento Capitalismo Consciente no Brasil e mais: primeiro negócio de impacto da América Latina a se tornar membro permanente do Programa One Planet Network, que lhe concede como referência em economia circular no mundo.

Em seu primeiro Relatório de Impacto elaborado em 2021, lançado recentemente, mesmo com a pandemia ainda em circulação, quando foi realizado, a Refazenda publicou seu RI e os resultados devem ser comemorados, segundo a fundadora: A Refazenda foi o primeiro negócio brasileiro de confecção a fechar o ciclo de produção com uso de 100% da matéria prima, com 1.237 metros de resíduos têxteis reaproveitados e 1.075 peças fabricadas com 100% de aproveitamento de materiais.

No Relatório de Impacto Refazenda destacam-se alguns itens: no ano de 2021 foram adquiridos 10.048,65 metros de tecidos. Destes, 8.049 peças fabricadas. Em relação ao tipo de origem grande parte, 44,68% de origem vegetal, sem aditivos químicos (sustentável), 1,54% sintéticos; 53,78% viscose vegetal, dos quais 26%certificada. Nos aviamentos utilizados na confecção das peças a madrepérola se sobressai com 59,67%, poliéster 14,49% e o coco com a participação de 25,80%, feitos de matéria-prima biodegradável (sustentável).

“A minha roupa tem que ter uma longevidade. Mas não é só isso. Eu tenho que ter uma mão de obra bem paga, condições de trabalho satisfatórias, trabalhar em condições que o produto dure muito, a água não polua o meio ambiente. O processo de certificação começou em 2019 e somente agora em 2022, por conta da pandemia, a empresa recebeu a referência”, disse Magna.

“O nosso primeiro Relatório é a nossa forma de compartilhar nossa verdade e nosso esforço diário para colaborar com a mudança que devemos fazer todos em quanto sociedade. A moda é a expressão de uma cultura, de um povo. Os pilares da sustentabilidade já estavam postos desde sempre, lendo sobre economia ecológica, militando no Greenpeace”, reforçou.

As escolhas dos parceiros

Tudo começa na escolha da matéria-prima. A marca escolhe tecidos de origem natural, de fornecedores responsáveis, com um uso na produção mão de obra artesanal. “Temos várias pessoas envolvidas e escolhemos sempre nos aproximar do regional, do artesanal e do natural. Uma moda ética e sustentável é feita de histórias e pessoas.Quando vamos divulgar esse material também somos exigente e escolhemos investir em cinema, teatro, na cultura”.

“Adquiro 80% e os 20% que reaproveito tenho que ter a maior vida longa desse produto para não virar descarte, ao contrário do fastfashion. A minha roupa tem quer ter longevidade e a moda não quer isso. A indústria de moda, de vestuário tem esse gatilho,de não ter essa preocupação com a sustentabilidade. Ainda temos que avançar muito, mas vejo que já não estamos mais sozinhas”.

Pesquisa e Desenvolvimento

Sem esquecer da relevância da Pesquisa e desenvolvimento, pensando sempre na melhor prática para construção da peça, de forma inteligente encontramos formas inovadores de ser versátil e sustentável. Se a embalagem for realmente sustentável estará escrito que foi feita com materiais reciclados ou que possam ser reciclados ou biodegradáveis.

Porquê defender a slowfashion⬇️

Impactos da moda rápida (fastfashion) no mundo

>Anualmente, estima-se que 300 milhões de toneladas sejam produzidas e apenas 10% disso seja reciclado.

>A indústria têxtil é uma das principais consumidoras desse material e um dos agravantes é a tendência da “moda rápida”, marcada por preços baixos e que estimula a compra mais frequente de peças.

> A indústria da moda é responsável por 8% da emissão de gás carbônico na atmosfera, ficando atrás apenas do setor petrolífero.

>O poliéster, uma das fibras mais utilizadas no mercado fashion, é responsável pela emissão anual de 32 das 57 milhões de toneladas globais

>O impacto negativo do setor da moda não atinge apenas o meio ambiente, sendo profundo na esfera social

Um estudo conduzido pela Boston Consulting Group chamado Pulse of the Fashion Industry, de 2019, mostra que até 2030 a indústria global de vestuário e calçados terá crescido 81%, chegando a 102 milhões de toneladas de roupas e acessórios, exercendo uma pressão sem precedentes sobre os recursos do planeta.

 

*Matéria originalmente publicada na edição 186/ Julho, da Revista Nordeste, produzida e escrita por Luciana Leão

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Luciana Leão

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