Quando o vento e o sol sopram a favor do Nordeste

Terra boa.

Vem do mar, da agricultura
vem do rio e do terreiro
vem do mel da rapadura
vem das terras do roceiro
do engenho a cana pura
e o nordeste tem fartura
que abastece o mundo inteiro”,

do poeta Guibson Medeiros.

 

Quem imaginaria que o Nordeste brasileiro descrito pelos poetas e escritores no passado como seco, árido, cinza vem a se tornar por meio de suas riquezas naturais, em abundância, como o sol e os ventos alísios, presentes nos nove estados, celeiro de uma transformação pleiteada pelo mundo: a transição energética da matriz fóssil para as energias renováveis.

Pois é, estão na Região Nordeste os principais geradores de energia elétrica por fonte eólica, segundo o relatório anual da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica). A região possui geração muito próxima à do sistema como um todo, tendo representado, em 2021 (último levantamento), 88,7%, sendo os estados da Bahia e do Rio Grande do Norte os principais “competidores” do setor eólico no País.

E mais. De acordo com dados da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR) e da ABEEólica, atualizados até o final de 2021, a Região Nordeste conta com um total de 253 usinas solares e 534 usinas eólicas em operação.

Piauí e Bahia lideram na fonte solar

O estado do Piauí é o que apresenta a maior capacidade instalada na região, seguido por Bahia e Pernambuco,concentrando mais de 50% de toda a energia gerada pela fonte, com base nos dados de geração acumulada de 2023, segundo a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

Neste primeiro semestre de 2023, os estados da Bahia e Piauí se apresentam como os principais produtores do setor solar fotovoltaico na região, sendo a Bahia a segunda maior geração total de energia solar do Brasil, mesmo com a sazonalidade da irradiação solar, correspondendo a 19,72% da geração nacional, com base nos dados de geração acumulada em 2023, disponibilizados pela CCEE, diz trechos do Informe Executivo de Energia Solar.

Geração própria

Segundo mapeamento da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a geração própria de energia solar no Nordeste está em vias de atingir um marco de 4 gigawatts de potência instalada, com investimentos acumulados que somam quase R$ 20 bilhões.

A região possui atualmente 382,7 mil sistemas fotovoltaicos instalados, que abastecem cerca de 562 mil consumidores residenciais, rurais e empresariais, espalhados em mais de 1,7 mil municípios dos estados nordestinos.

Piauí

Energia solar é a aposta do Piauí para a transição energética. Foto: Divulgação

De acordo com dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), atualizados até dezembro de 2021, o Piauí possui uma capacidade instalada de energia solar de 2.047,7 MW, o que representa cerca de 9,5% da capacidade instalada de energia solar no Brasil.

Alguns dos principais municípios com usinas de energia solar em operação no Piauí incluem Ribeira do Piauí, São João do Piauí, Jaicós, Bom Jesus, Lagoa do Barro do Piauí.

Já em termos de projetos de energia renovável em construção, a Usina Solar São Gonçalo III, localizada no estado do Piauí, é um dos maiores projetos em andamento. Desenvolvido pela empresa Enel Green Power, o projeto terá capacidade instalada de 475 MW e está previsto para entrar em operação ainda em 2023.

A usina é composta por cerca de 1,2 milhão de painéis solares distribuídos em uma área de cerca de 1.200 hectares. Quando estiver em operação, deverá gerar cerca de 1,2 TWh por ano, o que seria suficiente para abastecer aproximadamente 600 mil residências e evitar a emissão de cerca de 600 mil toneladas de CO2 por ano.

A usina faz parte de um complexo de usinas solares que a Enel Green Power está desenvolvendo na região do Piauí, chamado de Parque Solar São Gonçalo. O complexo já conta com outras duas usinas solares em operação, a São Gonçalo I e a São Gonçalo II, que somam uma capacidade instalada de 608 MW.

Rio Grande do Norte

O RN já ocupa posição de destaque na produção nacional como um dos líderes de produção de energia eólica do Brasil com um total de 224 usinas onshore (terra) já em operação, distribuídos no Litoral Setentrional, Serras Centrais e na região Nordeste do Estado, representando uma capacidade instalada de 6,76 GW.

Segundo o novo Atlas Solar e Eólico do estado potiguar, lançado em 2022, a produção de energia solar através da geração centralizada cresce e o estado dispõe hoje de 17 usinas fotovoltaicas em operação.

Os três municípios que mais dispõem de usinas instaladas são Serra do Mel com 36 parques e potência total de 741,56 MW, seguido do município de João Câmara com
29 parques (629,20 MW) e Parazinho com 22 parques e 605,21 MW de potência instalada).

Ainda, 147 novos empreendimentos encontram-se em construção ou a iniciar sua construção, no qual somará respectivamente 2.501,19 MW e 2.872,7 MW à atual capacidade instalada, elevando a atual potência instalada para 12,22 GW. Os empreendimentos em construção estão localizados em sua maioria nos municípios de lajes (22) e Jandaíra (14).

Energia Solar

Com relação a geração solar distribuída, o Rio Grande do Norte apresenta atualmente cerca de 33.637 usinas instaladas, o que representa uma potência de 321,82 MW. A maior parte dessas usinas seguem concentradas principalmente nos municípios de Natal, Mossoró e Parnamirim. Em termos de geração distribuída, mais de 33.500 potiguares já produzem hoje sua própria energia, seja para fins comerciais, residenciais ou industriais.

Atualmente, o maior projeto de energia renovável em construção no Brasil é a Usina Solar Fotovoltaica Serra do Mel, localizada no estado do Rio Grande do Norte. O projeto é desenvolvido pela empresa italiana Enel Green Power e terá uma capacidade instalada de 475 MW, distribuídos em dois complexos.

O complexo Serra do Mel 1 com capacidade de 293 MW, enquanto o complexo Serra do Mel 2 terá capacidade de 182 MW e está previsto para entrar em operação ainda em 2023. Quando concluída, a usina será a maior usina solar da América Latina e evitará a emissão de cerca de 860 mil toneladas de CO2 por ano.

Usina de Xingó em Sergipe

Sergipe possui uma matriz energética rica e diversificada, englobando a geração hidrelétrica, termelétrica, gás natural, e projetos em energia solar em desenvolvimento.

A Hidrelétrica de Xingó, por exemplo, é responsável pelo abastecimento de 30% de toda energia da região Nordeste. Já no município da Barra dos Coqueiros, está instalada a maior termelétrica a gás natural da América Latina, a Porto Sergipe I, com uma capacidade de 1.600 MW.

Valmor Barbosa, secretário da Sedetec. Foto Governo de Sergipe

“Estamos apoiando novos projetos voltados para a geração de energia e que devem ser, em breve, implantados no estado, como o projeto de energia fotovoltaica nos municípios de Canindé do São Francisco (2.084,88 MW) e de Neópolis (540 MW)”, disse à Revista Nordeste Valmor Barbosa, secretário do Desenvolvimento Econômico, da Ciência e Tecnologia de Sergipe.

“Temos trabalhado junto ao Ministério de Minas e Energia (MME) e Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), para reforçar a necessidade de novas linhas de transmissão, interligando estes projetos às linhas já existentes”, reforçou.

Recentemente, o secretário esteve em Brasília, com o presidente da Codise, Ronaldo Guimarães, em reunião com a Secretaria de Planejamento e Transição Energética, do Ministério de Minas e Energia (MME), para tratar sobre transição energética e investimentos em energia.

Estamos atentos aos novos leilões que acontecerão em 2023, nos quais Sergipe poderá receber investimentos no primeiro, que acontecerá em junho e reforçamos a importância de novas linhas de transmissão no estado“.

Em construção, alguns investimentos têm destaque como os da companhia Sterlite Power, que já iniciou as obras na Barra dos Coqueiros para uma linha de transmissão de 500 kV, com 365 km, interligando as subestações de Porto de Sergipe, Olindina e Sapeaçu.

Linha de transmissão- Foto Arthuro Paganini

Ao todo, 27 municípios sergipanos serão atingidos por ela, são eles: Aracaju, Areia Branca, Barra dos Coqueiros, Boquim, Campo do Brito, Carmópolis, Divina Pastora, General Maynard, Itabaiana, Itabaianinha, Itaporanga d’Ajuda, Lagarto, Laranjeiras, Malhador, Maruim, Nossa Senhora do Socorro, Riachão do Dantas, Riachuelo, Rosário do Catete, Salgado, Santa Rosa de Lima, Santo Amaro das Brotas, São Cristóvão, São Domingos, Siriri e Tobias Barreto. O investimento estimado gira em torno de R$ 450 milhões.

A companhia também arrematou, durante leilão promovido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o lote cinco para a construção de outras novas linhas de transmissão de energia com 113 km de extensão e 300 MVA em subestação na Bahia e em Sergipe.

“A busca por novos investimentos na área de energia tem sido uma constante do Governo do Estado, que tem atuado junto ao Governo Federal, aos órgãos regulatórios vinculados ao setor, bem como aos institutos de pesquisa e federações de indústrias, discutir soluções viáveis e apresentar as potencialidades do estado, a fim de consolidar Sergipe no cenário energético e promover assim o desenvolvimento econômico” acrescenta o secretário.

Exemplo disso foi o Sergipe Day, evento que realizado na Federação das Indústrias de São Paulo, em abril último, onde as potencialidades de Sergipe, em especial na área do gás, foram apresentadas ao setor industrial do país. O mesmo encontro deve acontecer em novembro, a convite da Fundação Getúlio Vargas para realizar um Sergipe Day também no Rio de Janeiro. “Sergipe é um estado de oportunidades, onde o gás e o setor energético tem grande potencial de ser condutor do desenvolvimento”.

O potencial da energia solar na Paraíba

Com um dos maiores índices de radiação solar no Brasil, chegando a atingir anualmente mais de 2.200 kWh por metro quadrado no setor oeste do Estado (Atlas Brasileiro de Energia Solar. INPE, 2017), Paraíba tem na geração de energia solar fotovoltaica centralizada, 18 parques em operação, com uma potência instalada de 454,15 MW.

Com sete parques em fase de construção e mais 65 outorgados (construção não iniciada), serão adicionados, respectivamente 350 MW e 2.893,57 MW, elevando a capacidade instalada em usinas fotovoltaicas para cerca de 3.703.72 MW.

O setor eólico

Parque Eólico Vale dos Ventos, em Mataraca, na Paraíba. Foto: Clovis Porciuncula

 

“Com relação ao potencial de energia eólica, a capacidade estimada para instalação em solo (onshore) é de 10,2 GW em locais com velocidade média superior a 7,5 metros por segundo, de acordo com o Atlas Eólico da Paraíba (2018)”, disse o secretário Executivo de Energia, Robson Barbosa à Revista Nordeste.

Atualmente a Paraíba possui 33 parques eólicos em operação com capacidade instalada de 765,94 MW; nove parques em construção, com capacidade total de 345,34 MW, e mais 40 outorgados que totalizam 1.413,30 MW, que adicionarão mais 1.286,80 MW, elevando a capacidade instalada em usinas eólicas para 2.398,085 MW.

Matriz Energética

O Estado possui 1,86 GW de capacidade instalada para geração de energia elétrica: 72,04 % em energia renovável e 27,96 % não renovável.

Com a conclusão dos parques em andamento e os previstos, a capacidade total atingirá cerca de 6,72 GW, e a partir daí a matriz de energia elétrica passará a ser 92,00% renovável e 8,00% não renovável.

Geração solar distribuída

Com relação à geração distribuída, nos últimos quatro anos, a Paraíba registrou um crescimento de aproximadamente 27 vezes na capacidade instalada em empreendimentos de energia solar fotovoltaica.

A potência instalada atinge atualmente cerca de 302,1 MW, abrangendo 43.354 unidades consumidoras, de acordo com dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL).

“Esse cenário demonstra a importância da Paraíba na área energética, que vem crescendo cada vez mais. A Paraíba é um dos estados que apresentam excelentes condições para investimentos em energias renováveis, devido a qualidade dos recursos energéticos, principalmente os eólico e solar; estradas e rodovias em condições adequadas; disponibilidade de sistemas de comunicação próximos aos sítios energéticos, e linhas de transmissão para escoamento da energia gerada pelos empreendimentos”, acrescenta Barbosa.

Investimentos

O setor de energia renovável tem viabilizado investimentos na Paraíba que somam mais de R$ 8,1 bilhões e resultando na geração de 4.500 empregos, melhorado as condições de vida dos arrendatários das terras onde se localizam os empreendimentos, além de contribuir para a geração de renda e melhoria da qualidade de vida, notadamente, no sertão e semiárido paraibanos.

Além disso, os municípios que sediam as usinas de produção de energia podem aumentar o seu índice de participação na distribuição geral do ICMS do Estado, face ao aumento do movimento econômico (adição de riqueza) decorrente dos serviços prestados pelas empresas geradoras.

Hidrelétricas e PCHs lideram em PE

Em Pernambuco, existem em operação 155 unidades de geração de energia limpa. Entretanto, ainda predominam em termos quantitativos de potência 71 térmicas de biomassa/gás/ outros combustíveis fósseis, totalizando mais de dois milhões: 2.052.660,00 kW.

Apesar de a matriz eólica estar em segundo lugar em termos de unidades instaladas, 42 usinas ao todo distribuídas no Estado, com potência de 1.115.365,00 kW, as hidrelétricas e PCHs ainda geram mais de 1.503.860,64 kW.

As plantas de geração solar em operação somam 28 unidades, com 414.853,63 kW.

No levantamento realizado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco para a Revista Nordeste, estão em construção 19 unidades de produção de energia solar e uma de eólica, com previsão de 764.908,00 kW.

Já em previsão de iniciar construção, projetos de energia solar lideram com 61 plantas a iniciarem as obras, com potencial de 2.698.801,00 kW e 18 unidades de investimentos em energia eólica, com 562.200,00 kW de potência.

 

**Conteúdo elaborado para Revista Nordeste, edição 196, produzido e escrito pela editora do EJ, Luciana Leão

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Luciana Leão

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