Nova espécie de planta homenageia Marielle Franco

Entre duas reservas oficialmente preservadas no Nordeste brasileiro, a Reserva Municipal de Bonito, no Agreste pernambucano, e a Reserva Biológica de Pedra Talhada (AL), na localidade de Quebrangulo (na divisa entre Alagoas e Pernambuco) uma nova espécie de planta foi descoberta por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Waltheria marielleae está entre as espécies do gênero Waltheria, da família Malvaceae : Foto: Marccus Alves

A planta documentada como Waltheria marielleae está entre as espécies do gênero Waltheria, da família Malvaceae, da qual também pertencem outras como o algodão, quiabo, paineira, barriguda e o baobá. A descoberta da espécie vai além da diversidade dos biomas onde a planta foi encontrada, a partir de estudos de campo de parte da tese de doutorado de Thales Silva Coutinho (doutor em Biologia Vegetal pela UFPE) e de seu orientador Marccus Alves (professor do Departamento de Botânica da UFPE).

A simbologia dada ao nome da espécie Waltheria marielleae é uma homenagem póstuma à vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018, ano do início dos trabalhos do Doutorado. O estudo foi realizado, no período de 2018 a 2021.

Marccus Alves, professor e doutor em Botânica da UFPE. Foto: Arquivo pessoal

“Além da simbologia do nome que faz jus à luta da Marielle Franco, em prol dos direitos humanos, da questão do gênero e da situação caótica de verbas para pesquisas científicas nas instituições de ensino, nossa homenagem é um conjunto de fatores. Um alerta e, ao mesmo tempo, um grito de vozes caladas. Descobrimos justamente numa época conturbada em nosso país”, falou, por telefone ao EJ, o professor Marccus Alves, orientador da tese de doutorado de Thales Silva Coutinho.

Planta diferenciada

Waltheria marielleae é uma planta que chamou atenção dos pesquisadores pela sua coloração cinza-esverdeada nas folhas, com flores pequenas e amarelas, e muito pêlo no ramo. “Em meio a tantas outras, a planta de pequeno porte é um arbusto. Não sabemos ainda se é cosmetível ou se terá um destino fitoterápico. O próximo passo é entender a quantidade dessa população, se está ou não ameaçada de extinção”, comentou o doutor e professor Marccus Alves.

Ilustração feita pela artista Regina Carvalho da planta, uma exigência científica, quando se descobre uma nova espécie de plantas.

A descoberta dos pesquisadores pernambucanos está documentada no artigo “ (Byttnerioideae, Malvaceae), a new species from north-eastern Brazil supported by morphological and phylogenetic evidence”, publicado na Plant Ecology and Evolution, este mês.

Planta armazenada cientificamente no herbário Geraldo Mariz da UFPE. Foto: Arquivo UFPE

 

Thales Coutinho, que defendeu a tese, analisa a amostra da planta no herbário. Foto: Arquivo pessoal

O trabalho é assinado pelos pesquisadores Thales Silva Coutinho (doutor em Biologia Vegetal pela UFPE), Mariela Analía Sader (doutora em Biologia Vegetal pela UFPE), Andrea Pedrosa-Harand (professora e doutora do Departamento de Botânica da UFPE) e Marccus Alves (professor e doutor do Departamento de Botânica da UFPE).

O estudo ainda envolveu o Laboratório de Morfo-Taxonomia Vegetal, o Laboratório de Citogenética e Biologia Molecular Vegetal, além do Herbário Geraldo Mariz (onde está armazenada a amostra da planta), todos três vinculados ao Departamento de Botânica do Centro de Biociências (CB) da UFPE, do Campus Recife.

Os pesquisadores utilizaram os métodos mais atuais em taxonomia de plantas, que inclui análises da morfologia externa, da biologia molecular (com marcadores moleculares) e filogenia.

Segundo o professor Marccus Alves, a descoberta reforça a diversidade de espécies de plantas da Mata Atlântica nordestina e a necessidade de mais estudos sobre as florestas locais e suas espécies. “Paralelamente, nos faz entender a função e importância das Unidades de Conservação para garantir a existência dessas espécies, já que as plantas localizadas dessa espécie ocorrem em áreas oficialmente preservadas, como a Reserva Municipal de Bonito e a Reserva Biológica de Pedra Talhada”, afirmou ele. “Além disso, os resultados obtidos permitem o esclarecimento das relações evolutivas entre as espécies do gênero Waltheria, da família Malvaceae”, disse Alves.

Please follow and like us:

Luciana Leão

Leia mais →

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 × 5 =

Twitter
Visit Us
Follow Me
LinkedIn
Share
Instagram