No meio do caminho, o INSA transforma vidas no Semiárido brasileiro

Em meio ao estigma imaginário de que o Semiárido brasileiro é apenas constituído de um cenário pobre, sem riquezas naturais, com poucas soluções inteligentes adaptativas para conceder mais qualidade de vida aos seus habitantes, eis que a realidade é desmistificada.
Sobrepõe-se a esse grotesco desconhecimento por grande parte da população, a altivez, responsabilidade e conhecimento ao que o Instituto Nacional do Semiárido Brasileiro (INSA), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, vem transformando a região, que abrange dez estados brasileiros inseridos no único bioma exclusivamente brasileiro, a caatinga.
Um olhar menos preconceituoso para a região deveria ser a frase direta para dar início à essa entrevista exclusiva da NORDESTE com a diretora do INSA, Mônica Tejo.
“A gente precisa olhar para a caatinga admirando-a com sua resiliência, com sua biodiversidade, com a possibilidade de extração de bioativos ainda não conhecidos de uma potencialidade tremenda com relação a fauna, sua flora. Pesquisas e aplicabilidade que precisam ser pensadas, precisam ser aplicadas para nossa região baseados nos nossos cases de sucesso”.

NORDESTE – A Tecnologia SARA (Saneamento Ambiental e Reúso da Água) vem se tornando uma alternativa eficiente no saneamento rural sustentável na região do Semiárido, tornando a vida das famílias mais digna. A senhora poderia nos explicar de que maneira funciona e como ampliar o escopo dos municípios a utilizar a tecnologia?

MÔNICA TEJO – Quando se fala da tecnologia SARA que foi desenvolvida pelo INSA, temos a possibilidade de utilização dos efluentes de águas cinzas e negras, tanto em escala familiar, como escolar, comunitária e municipal. Dessa forma, a gente traz uma alternativa para que se possa ter um saneamento rural, digno, de qualidade para as famílias inseridas no semiárido brasileiro.

Tecnologia SARA transforma vidas no Semiárido nordestino. Foto: INSA

O sistema está composto por uma unidade de tratamento, um reator denominado ASB, e duas lagoas de polimento que estão dimensionadas para que a gente consiga reduzir a carga microbiana do esgoto gerado pela família, pela escola, pela comunidade, ou pelo município.

E, dessa forma você tem uma água de reuso com uma baixa contaminação de patógenos e uma segurança na sua manipulação direta e utilizá-la em processos ou em áreas irrigadas. Mas, como ela é de uso restrito, podemos irrigar frutíferas, palmas, espécies madeireiras, forrageiras, mas nada que se consuma diretamente irrigado com essa água de reuso, pois nossa legislação não permite dessa forma. É uma tecnologia que está sendo implantada no semiárido brasileiro com mais de 80 unidades instaladas sendo nas escalas familiar, escolar, comunitária e municipal. Isso é muito positivo para que possamos estar contribuindo de forma direta ou indireta a segurança alimentar da sociedade que está inserida no semiárido.

Custo e benefício

A tecnologia tem um custo benefício interessante e temos projetos em parceria direta com os ministérios, também com investimentos frutos de emendas parlamentar e de fundos de investimentos internacionais a exemplo do FIDA (Fundo de Investimento de Desenvolvimento Agrícola, da ONU), como também do IICA – que é o Instituto Interamericano de Cooperação Agrícola. Isso é muito positivo para o INSA. Ser protagonista de ações de saneamento rural, ambiental e que tem um impacto muito positivo para a sociedade fazendo com que se traga esse bem tão nobre, que é a água, para nós inseridos na caatinga e no semiárido brasileiro.

NORDESTE – Como os municípios inseridos na região podem ter acesso à tecnologia SARA e quantos já estão sendo beneficiados?

MÔNICA TEJO – Os municípios que estão inseridos no semiárido brasileiro, hoje totalizam 1.262. Eles podem ter acesso direto a essa tecnologia nos conectando diretamente, com o INSA. A gente consegue fazer uma proposta voltada diretamente para a realidade daquele município, seja com implantação de unidades familiares, para que comunidades e famílias inseridas em lugares mais distantes possam ser beneficiados com a tecnologia social, mas também escolas modelos com consciência ambiental, comunidades rurais e também utilizando a estação de tratamento de esgoto municipal, onde o INSA constrói o sistema, a unidade de reuso e faz com que se tenha áreas irrigadas, um benefício direto da comunidade dentro daquele município.

Então é um investimento direto do município com o INSA onde a gente subsidia toda a aplicação e a difusão da tecnologia para os municípios que estão contemplados no semiárido brasileiro.

Em termos de quantitativo de famílias beneficiadas com a tecnologia temos hoje 70 a 80 unidades unifamiliares por meio de um convênio com o IRPA. Nós temos 22 unidades escolares com apoio do IICA, através do Ministério do Desenvolvimento Regional. Também temos agora o FIDA, que é o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, da ONU, por meio do Ministério do Desenvolvimento Agrário, estamos implantando 100 unidades do SARA familiar. Teremos um impacto direto de 100 famílias, numa escala maior, se projetarmos que cada seio familiar possua no mínimo cinco pessoas. Além disso, no MDR temos três unidades em escala municipal na Bahia, Sergipe e Pernambuco.

NORDESTE – Quais soluções desenvolvidas pelo INSA, além do SARA, que podem alcançar mais benefícios para a população rural e que sobrevive no bioma Caatinga?

MÔNICA TEJO – O INSA também tem tecnologias voltadas à captação de águas de chuvas, além de nosso SARA. Temos outros modelos de utilidade da tecnologia de reuso de domínio público e estamos melhorando cada vez mais esses sistemas para trazer alternativas relacionadas ao uso dos recursos hídricos. Estamos também implantando em quatro escolas em quatro estados distintos (Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas e Bahia) uma tecnologia que vem de Israel, a partir da condensação da água do ar, a qual chamamos de água atmosférica, ou seja, “bebendo” a água do ar. Esse projeto tem a parceria com a FioCruz levando segurança hídrica para essas crianças nas escolas, com alta taxa de insegurança hídrica e também de vulnerabilidade.

É importante também citarmos as estruturações de projetos nos municípios, nas regiões voltadas às espécies de palma, principalmente, a palma forrageira e difundindo palma resistente à cochonilha, onde levamos a temática da segurança alimentar, de forma direta ou indireta. Também estamos em curso com projetos de desenvolvimento genético da palma, com objetivo de descobrir voltados ao aspecto nutricional da espécie, para que ela tenha uma potencialização na sua produção no campo.

Produção animal

No campo da produção animal temos estudos relacionados a uma raça bovina nativa do semiárido, que é o curraleiro pé-duro, uma raça que tem uma carcaça excelente, e estamos estudando a qualidade do leite produzido por esses animais, que possui qualidade, com predominância de A2A2, a qual chamamos, possuindo uma baixa taxa de alergenicidade e com alto valor agregado a esse produto. Nosso propósito é resgatar essa raça nativa da região.

Vale ressaltar a caprinocultura, a qual estamos trabalhando intensivamente com parcerias diretas com a Embrapa, Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) levando uma produção artesanal de queijo caprino, potencializando essa produção, essa cadeia produtiva inerente à nossa região.

Cactário no INSA possui mais de 3 mil espécies catalogadas. Foto: INSA

De tudo isso, também é relevante os estudos relacionados à nossa biodiversidade da caatinga. Temos estudos relacionados a bioprospecção de cactus. No INSA temos o cactário Guimarães Duque, onde possuímos mais de três mil espécies catalogadas e identificadas, além da coleção in vitro. Estamos testando substâncias isoladas a partir de seu potencial com universidades, com a FioCruz, entre outros parceiros importantes, inclusive, internacionais, para que nossos bioativos sejam cada vez mais estudados e aplicados em outras matrizes.

Energias renováveis

NORDESTE – Há de reconhecer que as energias renováveis tem na Caatinga um celeiro de produção. Como o INSA vem atuando nos efeitos relacionados ao desmate causado pela implantação de grandes usinas? E , em relação à energia descentralizada, existem soluções em curso?

O tema energia renovável é um tema de extrema importância para o semiárido brasileiro e o INSA não poderia deixar de lado e recentemente fizemos um RoadMap, elaboramos um Roadmap tecnológico de energias renováveis, trazendo temas voltados para ações de curto médio e longo prazo para se atingir a visão de futuro relacionado aos temas de energia solar, eólica, biomassa e hidrogênio verde. Reunimos uma gama de atores dos dez estados que compõem o semiárido brasileiro e montamos uma agenda estratégica de energias renováveis.

Para o semiárido, uma visão do futuro de dez anos para que a gente possa se direcionar e ter indicadores relacionados ao que a gente deve fazer de curto, médio e longo para atingir os nossos objetivos em parceria em rede, em parceria. Dessa forma, entendemos que o tema é de grande importância junto com o ecossistema, não de forma sozinho pois o INSA não possui pesquisadores, servidores relacionados ao tema diretamente então é uma ação em rede, para que a gente possa desenvolver pesquisas para entender e trazer alternativas para o impacto gerado com as energias.

Com a estruturação de usinas solares, eólicas que a gente entende e precisa também pensar em alternativas, em P e D diretamente e que fique aqui na nossa região Nordeste e não aconteça o que está acontecendo agora que é a produção de P e D daqui das usinas instaladas seja de solar, eólica, usinas de hidrogênio verde, estruturação de ações voltadas a questão da utilização de biomassa, hoje elas são estudadas e vistas mais por pesquisadores, por ações do Sul e Sudeste e Centro-oeste e não aqui do Nordeste.

Na visão da diretora do INSA, Mônica Tejo, o Nordeste precisa tomar para si o protagonismo de celeiro das energias renováveis. Foto: Arquivo Pessoal

Então, está errado. Precisamos reter os nossos cérebros, dar oportunidade para produção de P e D voltada à energia renovável e o INSA está pensando nesse sentido de estruturar uma ação em rede, de que consigamos fazer juntos, pesquisas, desenvolvimento e inovação com o ecossistema, para que as energias renováveis estejam cada vez mais alinhadas aos processos de descarbonização, aos conceitos de netzero, enfim de todo um conceito ambiental para atingir os objetivos globais.

Agricultura familiar

NORDESTE – A agricultura familiar é uma forte indutora de renda para as famílias que moram nas regiões do Semiárido nordestino. Quais ações de maior impacto tem revolucionado as culturas da região?

MÔNICA TEJO – Quando se fala de agricultura familiar de uma atividade produtiva, do campo, de camponeses, principalmente onde eles desenvolvem através de associações, cooperativas, grupos produtivos e empreendimentos rurais, tais empreendimentos têm total condição de crescer e de se tornar um negócio posicionado e trazer lucro gerando desenvolvimento regional.

O INSA tem apoiado muito em ações de impacto relacionados a apoiar grupos produtivos e fazer com que eles entendam ferramentas utilizadas em startups. Em grandes empresas para realizar do produtor, do agricultor familiar e transformar vidas e fazer com que eles cresçam, se desenvolvam e que os seus negócios sejam realmente comercializados e mudem a vida não só deles, mas das famílias e da região como um todo.

Acreditamos muito na força do empreendedorismo rural, com possibilidade real de aumento da renda e de impacto direto na sociedade que está inserida no semiárido, mostrando que é possível. Temos pessoas de fibra, que fazem produtos diferenciados e concedem dignidade para as pessoas.

Políticas públicas

NORDESTE – Como a senhora avalia as políticas públicas desenvolvidas pelos gestores para a Caatinga? São suficientes ou os governos estaduais, municipais e federal poderiam ter um novo olhar para o bioma?

MÔNICA TEJO – Precisamos deixar de olhar para a região como sendo um bioma excluído um bioma pobre. A caatinga é um bioma único do mundo a gente precisa olhar ela admirando-a com sua resiliência, com sua biodiversidade, com a possibilidade de extração de bioativos ainda não conhecidos de uma potencialidade tremenda com relação a fauna, sua flora. Tais perspectivas precisam ser pensadas, precisam ser aplicadas para nossa região baseados nos nossos cases de sucesso.

No INSA, temos a nossa missão social para o semiárido brasileiro, de empreender sistemas adaptados para que a gente possa ter tecnologias e fazer com que essa tecnologia tenha um impacto direto na vida das pessoas. Estamos bem alinhados com o nosso ministério, o da Ciência, Tecnologia e Inovação, capitaneado pela ministra Luciana Santos, uma entusiasta que nos provoca constantemente, para que a ciência e tecnologia do nosso país encontre alternativas para diminuir a fome, para acabar com a fome.

Usar essas ferramentas tecnológicas como subsídios a políticas é uma alternativa para que a gente possa dar dignidade para o homem do campo e valorizar cada vez mais o nosso bioma que é tão rico, com uma biodiversidade inexplorada se apropriar mais do que a gente tem de riqueza. E não deixar de lado e, acima de tudo, não ter preconceito com o lugar que a gente vive.

*Reportagem produzida e publicada originalmente  na edição 194 da Revista Nordeste pela editora do EJ, Luciana Leão

 

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Luciana Leão

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