Como os NFT´s estão revolucionando o esporte | Parte II

*Everton Cruz 

 Vamos continuar falando sobre a reviravolta que os NFT´s vem fazendo no mercado esportivo, das artes, entre outros setores. Para entender essa revolução, vale a pena explicar coisas básicas sobre NFT’s, já descritas em outras oportunidades, mas é sempre bom relembrar, para se tornar algo simples de entender.

O que é um NFT?

É a sigla para non-fungible token ou token não-fungível.  Um certificado de propriedade sobre um ativo 100% digital ou uma representação digital de um ativo físico, registrado em uma blockchain.

Um NFT tem quatro características principais:

  • Identidade única — cada NFT tem um token ID único, que o diferencia dos demais; mesmo que visualmente eles sejam iguais, o seu registro na blockchain será diferente, como irmãos gêmeos idênticos, que possuem um CPF cada um;
  • Autenticado — ao ser registrado em uma rede pública e imutável, é possível verificar a origem de emissão do token e confirmar se o mesmo é original ou não;
  • Rastreável — pelo mesmo motivo acima, é possível rastrear todos os passos deste NFT, desde sua emissão a cada transação em que passa de carteira em carteira, de forma perpétua;
  • Programável — é possível programar o comportamento de um NFT no momento de sua emissão dependendo da situação que ocorrer, usando o que se chama de contrato inteligente, que nada mais é do que linhas de código determinando este comportamento. 

 

Fan tokens e NFTs foram introduzidos pela primeira vez na indústria do esporte para aumentar o engajamento dos fãs por meio de colecionáveis ​. Foto: NFT Chronnus Sports

 

Na prática, ao emitir um token, é possível programar o pagamento de royalties ao criador a cada revenda que acontecer. Pronto, sabendo o básico, podemos prosseguir para o que interessa.

Leia mais sobre a revolução dos NFT´s

Transparência e controle sobre o mercado secundário

 

A venda de ingressos de forma física facilita falsificação e o cambismo. Foto: Ilustrativa Internet

A venda de ingressos em geral, especialmente no futebol, enfrenta dois problemas principais: a falsificação e o cambismo. 

Até a final da Champions League, um dos maiores eventos do planeta, sofreu com isto em sua última edição ao vender tickets em papel. Porém, se lembrarmos das características citadas acima dos NFT´s, veremos que são capazes de resolvê-los:

Identidade única e autenticação — é possível verificar o número individual daquele ingresso bem como quem o emitiu e quando o fez, acabando com a falsificação;

Rastreabilidade — ao ter acesso à origem e aos passos deste ingresso, é possível saber quem o emitiu, quem foi a primeira pessoa a comprar, quando comprou, quanto pagou, quantas revendas aconteceram, por quais valores. 

Cada transação é gravada na blockchain de forma imutável e transparente. Trocando em miúdos: se o João comprar, mas quem vai ao evento é a Maria, necessariamente João precisa transferir ou vender o ingresso para Maria poder entrar. 

Isto é importante não só em termos de segurança, mas também para entender o público que está indo ao estádio, uma vez que João e Maria são pessoas com gostos e preferências diferentes. Entender o seu público pessoalmente é fundamental.

Programabilidade — aqui a grande disrupção, na minha visão. Ao poder rastrear todo o caminho de um NFT desde sua emissão, já é possível ter um controle sobre o mercado secundário (revendas) deste ingresso. 

Contratos inteligentes

Entretanto, lembre-se que os contratos inteligentes determinam o comportamento deste token, como em revendas. Ou seja, se uma pessoa comprar um ingresso por 100 reais e decide revender por 200 reais, por exemplo, não só o dono do evento consegue saber disso no exato momento, como também se programar para receber royalties a cada revenda, pois tal percentual é automaticamente repassado ao organizador. 

É possível ainda determinar um preço máximo de revenda ou até bloquear tais revendas, algo extremamente útil em casos de gratuidades ou ingressos de patrocinadores. 

Vale lembrar que todo o processo é realizado sem precisar de intervenção humana, só código. Logo, o produtor do evento sempre poderá ser remunerado, se alguém resolver vender o ingresso que comprou, diferentemente do que acontece hoje pelo mercado.

Somente por estes motivos, a venda de ingressos como NTF´s já seria bastante benéfica. Mas há outras possibilidades.

Novas fontes de receita

Quem com mais de 30 anos nunca colecionou ingressos físicos? Isto é uma prática que se perdeu a partir do momento que os tickets se tornaram digitais, afinal, não há a menor graça em colecionar QR Codes.

Aqui os tokens também trazem benefícios: por serem vinculados a imagens, estáticas ou animadas, ingressos como NFT’s têm o potencial de se tornarem itens colecionáveis, criando novas fontes de receita para o organizador mesmo no pós-evento, uma vez que, dependendo do token, da imagem representada e de seu valor sentimental, haverá demanda para transações posteriores, sempre recolhendo royalties.

É possível, inclusive, aumentar ainda mais esta atratividade, atualizando os metadados vinculados aos tokens com informações e mídias relacionadas ao evento.

Como isso pode ser realizado

Imagine, por exemplo, que um clube de futebol possa colocar câmeras em todos os setores do estádio, filmando o campo. Se você comprou um ingresso para o setor A, foi ao jogo e depois tem o NFT na carteira, aquele token pode ser atualizado com imagens exclusivas da partida filmadas com a visão de quem estava naquele setor, além de fotos, placar, estatísticas.

Se acontece um lance antológico, como um gol ou uma jogada especial, o quanto o valor deste NFT não aumentaria sendo um colecionável escasso?

Outras maneiras de se monetizar 

  • Pode-se gamificar estes ingressos colecionáveis, criando experiências e/ou benefícios para aqueles que conseguirem juntar uma certa quantidade de NFTs, como, por exemplo, todos os ingressos de um mês ou de um campeonato. 

Dependendo dos benefícios ofertados, muitas pessoas que não compareceram aos jogos teriam interesse de comprar estes tokens para poder resgatá-los, o que seria não só uma oportunidade para o torcedor que foi à partida poder fazer dinheiro como também do organizador do evento ganhar receita em cima disso — e lembre-se, royalties atrelados ao contrato inteligente;

  • NFTs, mais do que simples colecionáveis, representam uma ligação direta entre emissor do token e comprador, sem intermediários, o que cria uma ótima oportunidade de formação de comunidade e novos modelos de negócio, como venda de produtos exclusivos para quem possui determinados tokens, algo cada vez mais comum em projetos de web3;
  • Conexão direta com uma novo modelo de sócio-torcedor, tokenizado, que chamo de CHRONUS sócio-torcedor ou sócio-torcedor 3.0;
  • Aluguel de NFTs; alguns novos padrões de token permitem a locação de tokens não-fungíveis. Em outras palavras, o dono do NFT pode determinar um período em que aquele token sairá de sua carteira para uma outra carteira e receber por isso sem precisar vender de forma definitiva. 

Em casos de season tickets, por exemplo, isto funcionaria muito bem. Imagine que eu tenha um NFT representando ingressos para todos os jogos do meu time na temporada mas, eventualmente, não possa comparecer a algum ou queira simplesmente revender. 

Eu posso determinar que, ao receber uma quantia estipulada em minha carteira até certa data e horário, este NFT sairá de minha carteira, ficará o dia da partida na carteira da pessoa que me pagou e, quando tudo terminar, automaticamente este token retornará.  Incrível, não?

Qual seria a experiência ideal

Primeiro, é importante falar novamente que para um cliente comprar um ingresso como NFT ele não precisa entender nada de blockchain.  Aliás, ele nem precisa saber que aquele ingresso é um token não-fungível se não quiser.

Do mesmo jeito que quando mandamos um email não sabemos como funciona o protocolo SMTP e não nos importamos com isso, só queremos que nossa mensagem chegue a alguém. Quem está comprando um ingresso o faz para ir a algum evento e pronto. 

A tecnologia é apenas o meio, o que interessa é o que ela entrega e por isso a experiência do usuário precisa ser a melhor e mais próxima possível do que ele está acostumado, mas com todos os benefícios que a blockchain traz.

Por isso, a experiência ideal, para mim, seria o cliente baixar um aplicativo de uma empresa de venda de ingressos, de um estádio ou de um clube em seu smartphone. 

Passo a passo

Ao criar sua conta com seus dados (nome, email, CPF, telefone), automaticamente uma carteira seria aberta, custodiada pela plataforma. Um menu com todos os eventos disponíveis para venda apareceria para o cliente escolher. Ao fazê-lo, uma página própria do evento abriria, contendo informações do mesmo e as categorias de ingressos disponíveis, com o valor. 

Ao escolher o setor, o cliente seria encaminhado para a tela de pagamento, podendo optar por cartões de crédito e débito, além de PIX.

Uma vez efetuada a compra, o token seria emitido e colocado na carteira. Com o token adquirido, o cliente teria duas opções: ativar o ingresso ou listar o token para revenda no marketplace do aplicativo. 

Caso opte pelo primeiro, seu token geraria um QR Code, vinculado à carteira, que seria usado para passar nas catracas com o próprio smartphone. Neste caso, o token ficaria bloqueado para revenda até o evento ocorrer. 

E o caso da revenda?

Caso queira revender, o cliente teria que acessar o marketplace do aplicativo e listar o token, determinando o preço de revenda. Interessados em comprar teriam que abrir uma conta no app para poder procurar as opções no marketplace e efetuar a transação. 

Ao fazê-lo, o dinheiro seria transferido para a carteira do primeiro dono, com os royalties sendo automaticamente direcionados ao organizador do evento, e o token seria transferido para o comprador.

Haveria ainda a opção de transferência simples entre carteiras (de amigo para amigo, por exemplo). Dessa maneira, o organizador pode tanto permitir sem custos quanto cobrar uma taxa por isso. 

Pessoas com direito a gratuidades ou patrocinadores também precisam baixar e criar uma conta no aplicativo para poderem receber seus ingressos em suas carteiras, mas neste caso os mesmos seriam intransferíveis.

Sem cambistas

Ao vincular ingressos a uma carteira atrelada a um smartphone, necessariamente qualquer transferência de tokens, tendo ou não uma transação financeira envolvida, se daria via carteiras, o que acabaria com os cambistas, já que a única maneira de burlar isto seria dando o aparelho para uma outra pessoa conseguir entrar no evento.

Todos os passos narrados acima seriam feitos em um ambiente fechado, mas seria possível pensar ainda na possibilidade de se liberar a transferência de tokens para carteiras fora do aplicativo, permitindo a listagem destes NFTs em outros marketplaces, como Opensea, por exemplo. 

Porém, para ativar o ingresso e gerar o QR Code seria obrigatório estar com este token na carteira do app por uma questão de controle.

Desafios

Apesar da visão descrita acima, há ainda desafios quando falamos de qualquer aplicação de web3. O primeiro é justamente a usabilidade. Por ser algo muito novo, é raro encontrar uma experiência de usuário realmente amigável. 

Geralmente ainda se faz necessário o uso de carteiras não-custodiadas, como Metamask, que não são das mais simples para uma pessoa “normal” entender como funciona. 

Há, entretanto, uma série de iniciativas focadas em resolver isto, portanto não acredito que vai demorar muito até este problema ser solucionado.

Outro desafio é o custo para desenvolver aplicações em blockchain. Não é fácil encontrar especialistas nesta programação. Os poucos que existem costumam cobrar caro por hora de desenvolvimento, o que acaba muitas vezes inviabilizando projetos, atrasando-os ou transformando-os em muito simples.

Resumo

  • Ingressos em NFT podem fornecer royalties contínuos ao artista e ao organizador do evento por meio dos contratos inteligentes, que já mencionamos acima. 

Se um portador de bilhete vende seu bilhete em um mercado secundário, uma porcentagem da receita de revenda também pode ser redirecionada ao artista ou organizador do evento. 

Portadores de bilhetes também podem revender os airdrops de NFT que receberem como parte das recompensas embutidas no bilhete.

  • Diminui as chances de perda ou dano Ingressos tradicionais em papel podem ser facilmente perdidos ou danificados.

Já os bilhetes de NFT possuem risco de perda ou dano exponencialmente menor, uma vez que armazenados em uma carteira digital que pode ser acessada através de um telefone celular.

Com o crescimento da tecnologia blockchain e web3, artistas, organizadores de eventos e fãs têm a oportunidade de ver o sistema de ingressos mudar a seu favor com a ajuda dos NFTs.

Tendo em mente que eles são construídos sobre uma rede blockchain, os bilhetes de NFT são facilmente autenticados e sua natureza imutável impede que os maus agentes criem ou distribuam ingressos falsos. 

Além disso, os organizadores de eventos e artistas podem se beneficiar do sistema de bilhetagem NFT ganhando mais controle sobre suas vendas no mercado primário e secundário, enquanto estabelecem um compromisso duradouro com os fãs.

Outro lado do mercado 

Embora o mercado de ingressos tenha se tornado digital o suficiente ao longo dos últimos anos, auxiliado pela pandemia, ele ainda é altamente centralizado, o que ajuda no crescimento do mercado clandestino e informal.

No mundo atual, os ingressos para qualquer grande show ou evento são comprados antecipadamente por acumuladores que depois os revendem a um preço exagerado.

Em muitas ocasiões, os cambistas vendem até falsificações, o que prejudica os clientes, que não têm como confirmar os ingressos autênticos antes de comprar.

Os NFTs oferecem prova de autenticidade, pois salvam dados em blockchain. Este mecanismo pode ser aplicado colocando ingressos em um blockchain, o que garante não apenas a autenticidade do ingresso, mas se ele estava sendo vendido por um organizador legítimo.

Potencial de mercado

Esses ingressos NFT também têm o potencial de explorar o mercado secundário de ingressos. Durante muito tempo, o mercado secundário esteve praticamente inacessível a organizadores de eventos e artistas.

Não regulamentado e especulativo, afeta tanto os fãs frustrados com os altos preços, assim como os artistas que são assediados por uma base de fãs infelizes.

Com a emissão de ingressos como NFTs, esse problema pode desaparecer. Artistas e organizadores de eventos podem criar contratos inteligentes que regem a revenda de seus ingressos – por exemplo, garantindo uma comissão por todas as revendas do NFT em questão.

Controle de preços

Além dos royalties provenientes de revendas, os benefícios do NFT podem incluir a limitação de preço máximo e mínimo para determinado ingresso e até incluir benefícios e utilidades para o seu portador. 

Com os ingressos NFT, a comunidade fica muito mais próxima do artista ou time esportivo. Isso significa que eles desempenham um papel maior nas decisões de seus artistas ou equipes.

Os ingressos NFT vão muito além do acesso. É um colecionável, mas também pode ser um pacote para todos os tipos de vantagens. Pode ser uma carteira que mantém o valor monetário de forma segura. 

Você pode conceder acesso a áreas específicas em um evento ou premiar uma camiseta, um hambúrguer, um pôster autografado ou US$ 100 em compras no local do show.

NFTs: mercados de experiências separadas

O mesmo NFT pode ser usado para garantir o acesso a um show, mas também ser a chave para sua estadia em hotel, visitar um parque temático próximo e até mesmo a chave para seu carro alugado em sua próxima viagem.

O desafio que sempre existiu para os NFTs é a barreira de acessibilidade no espaço para o público convencional. Há uma forte necessidade de uma introdução calorosa no espaço por meio de experiências e orientações amigáveis ao usuário. 

Acreditamos que a emissão de ingressos NFT representa um passo Web2.5 entre o público convencional e a Web3.

Em última análise, desde que o processo de compra e venda de ingressos em um mercado NFT seja sem atritos, as plataformas de ingressos NFT têm o potencial de destronar os grandes players desse setor. 

Ao focar na experiência do usuário, estamos criando um futuro que, na superfície, funciona de maneira semelhante às ofertas atuais, mas melhora fundamentalmente a experiência dos fãs, aumenta a receita dos artistas e reina no altamente descontrolado mercado secundário de ingressos.

Além do acesso a eventos, os ingressos em NFT servirão também para outros fins, como descontos em lojas e jogos, distribuição de tokens e outras experiências com a S. S. Lazio.

 

*Everton Cruz é CEO da startup franco-brasileira MoohTech, que traz em seu portfólio projetos inovadores, como o Chronus ipassport que, durante a Pandemia da Covid-19, possibilitou o monitoramento da propagação da doença em eventos esportivos como a etapa de Fórmula 1, em São Paulo, em 2021, entre outros, pelo Brasil e pelo mundo.

 

*As informações desta coluna são de inteira responsabilidade do autor.

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