Brasil conquista 1ª IG de Vinhos Tropicais do mundo

Uma conquista esperada há décadas pelos produtores de vinhos no Vale do São Francisco (VSF), nordeste brasileiro, finalmente foi chancelada pelo Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (INPI): a primeira Indicação Geográfica de Vinhos Tropicais do mundo. A concessão da indicação geográfica do VSF está publicada na Revista de Propriedade Industrial (RPI) nº 2704, baseada em requisitos equivalentes aos da União Europeia.

A indicação Geográfica Vale do São Francisco vai beneficiar viticultores e produtores de vinho fino, vinho nobre, espumante natural e vinho moscatel espumante, elaborados pelas vinícolas Adega Bianchetti Tedesco (Bianchetti), Vinum Sancti Benedictus (VSB), Terranova (Miolo), Terroir do São Francisco (Garziera), Vinícola do Vale do São Francisco (Botticelli), Mandacarú (Cereus jamacaru), e as vitivinícolas Quintas de São Braz (São Braz) e Santa Maria/Global Wines (Rio Sol), todas na região do Vale do São Francisco.

A previsão é que os primeiros vinhos com a Indicação de Procedência estarão no mercado a partir de 2023, depois de passarem pelas análises exigidas e pelas sessões de avaliação sensorial às cegas, etapas fundamentais para que o vinho possa receber o selo.

Sede da vinícola Terranova, da Miolo Wine Group en Casa Nova, na Bahia/Divulgação

A iniciativa é fruto de uma demanda histórica do Instituto do Vinho do Vale do São Francisco (Vinhovasf), em parceria com a Associação dos Produtores e Exportadores de Hortigranjeiros e Derivados do Vale do São Francisco (Valexport), Embrapa Semiárido e a Embrapa Uva e Vinho, a Indicação (IG) obedece aos mesmos requisitos utilizados pela União Europeia e abrange os municípios de Lagoa Grande, Petrolina e Santa Maria da Boa Vista, em Pernambuco; e Casa Nova e Curaçá, na Bahia.

Etapas

O trabalho de caracterização da região, necessário para enquadrar o cultivo e produção de vinho como uma IG – envolveu mais de 40 profissionais entre pesquisadores, professores, técnicos e estudantes. Eles trabalharam em conjunto para entender o funcionamento da vitivinicultura na região tropical e no aprimoramento da produção e qualidade dos vinhos.

Giuliano Pereira, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho liderou o projeto com mais 40 profissionais e pesquisadores/ Arquivo Pessoal

Giuliano Pereira, engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Uva e Vinho/Semiárido, localizada em Petrolina-PE liderou ao longo de cinco anos (2013-2018) o projeto de pesquisa para entender a vitivinicultura do Semiárido nordestino e aprimorar a qualidade dos vinhos da região.

“Estávamos aguardando a indicação para este ano.  Esta é uma grande conquista. O VSF é uma prova viva de que a tecnologia vitivinícola aplicada naquela região possibilita reduzir os efeitos danosos de elevadas temperaturas. Trata-se da vitivinicultura mais tecnológica do mundo. Hoje, podemos fornecer informações técnicas ao mundo todo sobre como manejar videiras em climas quentes, sem maiores prejuízos”, declarou ao EJ, Giuliano Elias Pereira, da Embrapa Uva e Vinho.

Técnicas de precisão

A eficiência com as tecnologias e as ferramentas usadas no Vale do São Francisco exporta conhecimento. Pereira cita  a irrigação, o uso da cianamida hidrogenada (Dormex) para a quebra da dormência, caso não haja, por exemplo, frio suficiente no inverno. “Além de aminoácidos pulverizados, nutrição mineral, porta-enxertos e variedades de viníferas mais adaptadas, bem como tipos de podas e sistemas de condução diferentes”, explicou Pereira.

Outra particularidade do terroir (palavra francesa que significa os efeitos do clima, do solo e do homem, na tipicidade dos vinhos) do Vale do São Francisco são as datas das colheitas distintas , além da adoção da viticultura de precisão, com uso de leveduras mais tolerantes ao clima, protocolos de vinificação distintos. “Em suma, a adoção da enologia de precisão, dentre outras técnicas”.

Valexport

Integrantes da VinhoVasf e Valexport comemoram a IG/Divulgação Valexport

Um dos pioneiros na luta por essa conquista, o presidente do Vinhovasf e da Valexport, José Gualberto de Almeida, ressaltou que a utilização do selo da IG nos produtos do Vale, além de representar um reconhecimento nacional e internacional, vai estabelecer um novo tempo para a única região no mundo a produzir três colheitas por ano e a elaborar vinhos de janeiro a dezembro. “Um vinho jovem, leve, frutado e aromático feito com sol, aroma e alegria para beber todos os dias”, ressaltou.

Gualberto acrescentou ainda, que os trabalhos em busca de um vinho original começaram em 2002, após a conquista da IG pelo Vale dos Vinhedos do Rio Grande do Sul. “Mas o Polo Vitivinícola do Vale do São Francisco, começou bem antes, no início da década de 1970, a partir do trabalho pioneiro de produtores como Franco Pérsico, Mamoro Yamamoto e Molina”, lembrou. “Agora, temos uma ferramenta para reforçar a qualidade do produto local e incentivar seu consumo, o que pode aumentar a produção e os investimentos no Vale do São do Francisco“, comemorou.

Tipos de vinhas

Os tipos de produtos autorizados na IP são os vinhos tranquilos brancos, tintos e rosés e vinhos espumantes brancos e rosés (bruts, demi-secs e moscatéis), elaborados com 100 % de uvas produzidas na área geográfica delimitada. Foram autorizadas, para fins de elaboração dos vinhos, 23 cultivares de uvas Vitis vinifera L., indicadas pelos próprios produtores, pela adaptação e desempenho na região. As variedades autorizadas para a elaboração dos vinhos comerciais na IP VSF são:

Brancas: Arinto, Chardonnay, Chenin Blanc, Fernão Pires, Moscato Canelli, Moscato Itália, Sauvignon Blanc, Verdejo e Viognier.

Tintas: Alicante Bouschet, Aragonês, Barbera, Cabernet Sauvignon, Egiodola, Grenache, Malbec, Merlot, Petit Verdot, Ruby Cabernet, Syrah, Tannat, Tempranillo e Touriga Nacional.

O Vale do São Francisco apresenta altitude de 400 metros, clima semiárido, solos ricos em minerais e pobres de matéria orgânica, 3.100 horas de sol ao ano e ausência de inverno e irrigação controlada com a água do Rio São Francisco. A região produz anualmente 7 milhões de litros de vinhos finos que conquistam novos mercados no Brasil e no exterior, além de premiações em concursos nacionais e internacionais a exemplo da Grande Prova Vinhos do Brasil e do Concurso Mundial de Bruxelas.

*Com informações da Vinhovasf , Valexport e Embrapa

Foto destaque: Ivanira Falcade

 

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Luciana Leão

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