Aliança Governadores pelo clima e o G-20 impulsionam protagonismo do Brasil e do Nordeste

 

 

O diretor executivo do Centro Brasil no Clima(CBC), Guilherme Syrkys, expõe análise reflexiva quanto à fragilidade do cenário político e econômico no mundo, no Brasil e para os nove estados da região frente ao financiamento climático.

 

 

Por Luciana Leão

 

Em 2024, o Brasil está à frente da presidência do Bloco G-20, que reúne as 20 maiores economias do mundo. E também se prepara para receber a COP-30, em Belém. Dois marcos essenciais na condução das políticas públicas necessárias ao enfrentamento das mudanças climáticas.

 

A Aliança Governadores pelo Clima, sob gestão do Centro Brasil no Clima(CBC),  reúne 24 gestores estaduais e o Nordeste presente com os governadores da Paraíba,  Bahia, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe.

 

Guilherme Syrkis, diretor executivo do CBC. Foto: Arquivo Pessoal

 

Sobre a importância da Aliança Governadores pelo Clima, a revista Nordeste entrevista, nesta edição, 207, o diretor executivo do CBC, Guilherme Syrkys, que expõe sua análise reflexiva quanto à fragilidade do cenário político e econômico no mundo, no Brasil e para os nove estados da região frente ao financiamento climático.

 

Segundo Guilherme Syrkis, apesar de o Brasil se encontrar em uma posição única para liderar e influenciar a agenda global de financiamento climático,  um alerta se acende com a eleição americana de 2024, juntamente com o contexto político interno, marcado por uma maioria no Congresso Nacional com limitada sensibilidade ambiental. Tais “motivações” introduzem incertezas que podem impactar os esforços de financiamento climático.

 

Diante desse cenário, ressalta o diretor executivo do CBC, é crucial que o Brasil aproveite 2024 como um período estratégico para mobilizar recursos internacionais, desenvolver e implementar projetos climáticos eficientes e transparentes.

 

Uma possível volta de Donald Trump à presidência dos EUA e os impactos da invasão da Ucrânia e da guerra, em Gaza, podem aumentar a volatilidade e vulnerabilidade relacionadas ao financiamento climático global”.

 

Embora haja um crescente investimento privado em energias renováveis, o Brasil enfrenta o desafio de financiar o “phase-out” ou seja o processo gradual de descontinuar a transição da indústria de petróleo e gás de maneira justa, promovendo não apenas a redução das emissões,  mas melhorando a qualidade de vida e a dignidade da população.

 

Nesse contexto, “a abordagem de blended finance é crucial para avançar o financiamento climático no Brasil, combinando recursos de diferentes origens, como fundos públicos, investimentos privados e apoio filantrópico”, pontua.

 

Blended finance, ou financiamento misto, é  uma combinação de financiamento que visa reduzir o risco para os investidores privados, tornando projetos viáveis que, de outra forma, poderiam não receber apoio financeiro suficiente.

 

O objetivo é catalisar investimentos para áreas onde são necessários, como infraestrutura sustentável, saúde, educação e desenvolvimento econômico em regiões carentes.

 

Confira a entrevista exclusiva:

 

 

Revista NORDESTE– Como o Nordeste se insere quanto ao financiamento climático, diante da convivência diversa de três biomas: Caatinga, Mata Atlântica e o Cerrado?

 

Guilherme Syrkys – É essencial reconhecer a singularidade de seus biomas e a vulnerabilidade socioeconômica da região. Estratégias eficazes incluem promover práticas agrícolas sustentáveis adaptadas à seca, fortalecer a gestão dos recursos hídricos, investir em energias renováveis (como solar e eólica, dadas as condições favoráveis da região), e implementar programas de educação ambiental focados nas particularidades locais.

 

Além disso, é crucial envolver as comunidades locais no processo de tomada de decisão, garantindo que as soluções sejam adaptadas às suas necessidades e modos de vida.

 

NORDESTE– O Centro Brasil no Clima é o idealizador da Aliança de Governadores pelo Clima?

 

Guilherme Syrkys – Consórcio Brasil Verde – Governadores pelo Clima é uma iniciativa que busca unir esforços dos governos estaduais para combater as mudanças climáticas e promover o desenvolvimento sustentável. São estados consorciados do Nordeste: PB, BA, PE, PI, RN, SE.

 

A diversidade dos biomas

 

NORDESTE– Na região há três biomas brasileiros: Cerrado Matopiba, Caatinga e a Mata Atlântica. Em todo o Nordeste, a questão climática já era um problema secular, agora, ficou pior, com a aceleração das mudanças climáticas. O que o especialista tem a dizer sobre?

 

Guilherme Syrkis – Os biomas do Nordeste – Cerrado Matopiba, Caatinga e Mata Atlântica – são essenciais para a biodiversidade e agricultura, mas enfrentam crescentes desafios devido às mudanças climáticas, como expansão agrícola, secas intensas e degradação do solo.

 

A necessidade de ações urgentes como reflorestamento, conservação da biodiversidade e práticas agrícolas sustentáveis é evidente para proteger esses ecossistemas. Além disso, a gestão inadequada dos recursos hídricos, influenciada por políticas clientelistas e distribuição política de emendas, amplia a vulnerabilidade climática na região. Isso resulta em desigualdades acentuadas no semiárido, onde o acesso à água é um desafio significativo e os equipamentos de armazenamento não são eficientemente utilizados.

 

NORDESTE– Como fazer essa adequação ser mais eficiente, na questão do armazenamento e distribuição equitativa?

 

Guilherme Syrkis – Apesar de o Nordeste ter o maior volume de água represada em áreas semiáridas globais, com 70 mil represas armazenando 37 bilhões de metros cúbicos, a falta de planejamento e a distribuição inadequada de recursos comprometem a eficácia desses reservatórios.

 

A dependência de soluções temporárias, como o abastecimento por carros-pipa, destaca a urgência de reformas na gestão hídrica e na alocação de recursos, visando uma abordagem mais sustentável e equitativa para proteger as comunidades e os ecossistemas nordestinos.

 

Adicionalmente, a promoção de projetos de revitalização, especialmente através do reflorestamento de mata ciliar ao longo do Rio São Francisco, torna-se uma estratégia crucial para a sustentabilidade hídrica e a recuperação de ecossistemas.

 

Essas ações não só ajudam a preservar a biodiversidade e a manter a qualidade da água, mas também servem como barreiras naturais contra a erosão do solo e o assoreamento do rio, beneficiando diretamente a vida de milhares de pessoas que dependem de suas águas.

 

O comprometimento com esses projetos reforça a necessidade de um esforço conjunto entre governo, comunidade e setor privado, visando não apenas a mitigação dos impactos das mudanças climáticas, mas também a garantia de um futuro mais resiliente e próspero para a região Nordeste.

 

O conceito do Blended Finance

 

Blended Finance: No Nordeste, essa abordagem poderia mobilizar investimentos significativos em infraestrutura verde, energia renovável, e práticas agrícolas sustentáveis.

 

 

NORDESTE– O senhor poderia nos explicar como funcionaria esse Blended Finance, em especial,  nos nove estados da região?

 

Guilherme Syrkis – O conceito de Blended Finance refere-se à combinação de capital público, privado e filantrópico para financiar projetos de desenvolvimento sustentável. No Nordeste, essa abordagem poderia mobilizar investimentos significativos em infraestrutura verde, energia renovável, e práticas agrícolas sustentáveis. Por exemplo, fundos públicos poderiam ser usados para mitigar riscos e atrair investimentos privados em projetos de energia solar e eólica. Além disso, parcerias público-privadas poderiam financiar a restauração de ecossistemas e a adoção de tecnologias de irrigação eficientes, cruciais para a adaptação às mudanças climáticas na região.

 

NORDESTE- Como se daria esse mix de investimentos?

 

Guilherme Syrkis – Sobre o mix de investimentos, é fundamental enfatizar a importância de uma abordagem integrada que considere tanto a mitigação das mudanças climáticas quanto a adaptação a seus impactos. Isso significa diversificar os investimentos para não apenas reduzir as emissões de gases de efeito estufa, mas também para aumentar a resiliência das comunidades e ecossistemas locais, o que não ocorre com frequência.

 

Investimentos em educação e capacitação são igualmente cruciais, pois empoderam as comunidades locais a participar ativamente na transição para um futuro mais sustentável e resiliente. Por fim, garantir a transparência e a governança eficaz desses investimentos é essencial para assegurar que eles atendam às necessidades locais e promovam o desenvolvimento sustentável de forma equitativa.

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Luciana Leão

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