Usina de Dessalinização em Fortaleza causa incertezas no futuro para setores de Telecomunicações e TI

Desde 2022, a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) e o Consórcio Águas de Fortaleza seguem avançando no projeto da usina de dessalinização (Dessal), na praia do Futuro. No entanto, a localização terrestre da planta industrial fica próximo aos dutos de cabos submarinos. A realidade tem gerado  insegurança e alerta por parte das empresas de Telecomunicações, pela possibilidade de intercorrência e danos à infraestrutura dos cabos submarinos instalados.

 

O Governo do Estado do Ceará por meio da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) e o Consórcio Águas de Fortaleza vivem um dilema com empresas de Telecomunicações, Cabos Submarinos e DataCenters, com a implantação da indústria de Dessalinização do Ceará (Dessal), prevista na praia do Futuro, em 2024, com previsão de término em 2026. 

Mesmo com a aprovação da Licença Prévia Ambiental para a Planta durante a 311ª Reunião Ordinária do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Coema), em novembro,  a TelComp, associação representativa de mais de 70 operadoras de Telecomunicações reforça a necessidade de alertar para futuros impactos que possam ocasionar, principalmente, na localização terrestre da usina, na praia do Futuro, em Fortaleza.

A Dessal

A Dessal do Ceará é um projeto de diversificação hídrica e tem como objetivo remover sal da água do mar e transformar em água potável e, dessa forma ampliar em 12% a matriz de fornecimento de água em Fortaleza e Região Metropolitana para que o abastecimento da população não dependa exclusivamente de chuvas. 

O projeto está sendo executado em formato de Parceria Público-Privada (PPP) entre a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) e o Consórcio Águas de Fortaleza, com investimento previsto de R$3,2 bilhões. 

Pelo escopo do empreendimento, a indústria vai produzir 1000 litros de água dessalinizada por segundo, para atender cerca de 720 mil pessoas diretamente em Fortaleza.

Além disso, a usina irá contribuir para minimizar a utilização de água dos mananciais do interior na capital.

A Revista Nordeste entrevistou Silvano Porto, coordenador da comissão de implantação da Dessal do Ceará e analista de Saneamento da Cagece, que reafirmou, no entanto, a segurança do projeto com relação ao funcionamento dos cabos submarinos localizados na Praia do Futuro.

Reajustes no Projeto original

Por recomendação da própria Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), houve uma readequação do projeto original com relação ao posicionamento das tubulações da Cagece. Antes, os dutos estavam a 40 metros dos cabos de fibra ótica e, com a exigência da Anatel passaram a ter uma distância de 567 metros. 

Silvano Porto, coordenador da comissão de implantação da Dessal, assegura que não existe probabilidade de danos ao setor de Telecomunicações e TI. Foto: Rayane Mainara

“Nós estamos atendendo a todas as solicitações das operadoras de telecomunicações e da Anatel. As soluções de engenharia nos mostram, a partir de dados e estudos, que não há nenhum risco de danos para a infraestrutura do sistema”, reforçou Silvano Porto, à reportagem da Nordeste. 

Silvano Porto acrescenta que, além das soluções técnicas a serem executadas pela Marquise, PB Construções  e Abegoa Água, todas com expertise na temática, segundo ele, todo o processo vem sendo objeto de audiências públicas, debates, com representantes de órgãos federais como a Anatel, além de setores que comungam com a preocupação da segurança hídrica para a população.

“A tecnologia que vamos implantar é de domínio público. As soluções técnicas de cruzamento de transferência das águas na parte subterrânea serão a partir de tubos que se conectam com o mar. O impacto do concentrado salino que será devolvido ao mar terá nível inferior de salinidade ao de uma salmoura que se utiliza para conservar azeitonas.    Não existe nenhuma probabilidade de danos aos cabeamentos de fibras óticas. Todas as solicitações feitas por empresas como a Claro, a Angola Cables entre outras, foram discutidas e já modificadas no projeto”, reforça o gestor da Cagece.

TelComp refuta localização terrestre da Usina de Dessalinização

 

O presidente Executivo da TelComp, Luiz Henrique Barbosa da Silva, conversou com a reportagem da Nordeste e afirmou que a entidade representa mais de 70 empresas entre operadoras de telefonia fixa e móvel; banda larga e acesso à internet; TV por assinatura; data centers e serviços corporativos.

Para a entidade, não está em debate a agenda de segurança hídrica do Estado e , sim, a insegurança da infraestrutura do hub de tecnologia instalado em Fortaleza.

Luiz Henrique Barbosa da Silva, presidente da TelComp. Foto: Divulgação

“Não se coloca nessa discussão que a nossa infraestrutura é mais importante que a agenda da água no Ceará. Respeitamos muito o governo local e a agenda de segurança hídrica. Inclusive, apoiamos a implantação do projeto de Usina de Dessalinização. Todo e qualquer apoio que pudermos dar iremos fazer. Mas, não concordamos, de maneira alguma, que uma indústria seja instalada em um terreno ao lado de uma infraestrutura de cabos submarinos, de data centers”, diz o executivo.

A tendência, olhando para o futuro, avalia o presidente da TelComp, é que a insegurança jurídica para futuros investimentos do setor em Fortaleza seja colocada à mesa, ao ser analisado qualquer empreendimento. 

“Se fosse o contrário, no passado, há 20 anos, se houvesse instalada lá, na Praia do Futuro, uma indústria de dessalinização, os projetos de cabos submarinos não estariam naquele local. Estão brincando com o futuro de novas gerações e investimentos no Ceará, no setor de Tecnologia”, pontua Luiz Henrique.

Passivos serão para o futuro

Ele acrescenta que a população atual não irá sofrer. “Houve um erro na escolha terrestre do local da usina e isso precisa mudar. Não teremos perdedor de imediato. Essa história vai terminar daqui a 20 anos, pois os cabos têm vida últil, de 20 a 25 anos. É o futuro”, ao explicar que, do mesmo modo que o estado do Ceará foi escolhido no passado para ser um Hub de Tecnologia, de grandes Data Centers, a Tecnologia muda. 

O executivo continua sua defesa ao comparar áreas específicas e seguras para uma infraestrutura de cabeamento de internet, telefonia e fibra ótica.

“Ninguém constrói, por exemplo, um Data Center, em regiões próximas a portos. Por que, nesses locais,  tem movimentação de navios, barcos, âncoras. É uma lógica na percepção dos projetos em telecomunicações. Qualquer intercorrência é fatal e pode sim impor um colapso nas conexões continentais de internet no Brasil e para o exterior”.

Investimentos bilionários

Quando se fala em projetos de interligação de fibra ótica por meio de cabos submarinos as cifras são bilionárias.

Em média, um projeto custa de U$ 300 a U$ 400 milhões de dólares numa rede intercontinental. Historicamente, ao longo dos anos, calcula-se que em 20 anos, tais investimentos podem chegar entre U$4 a 5 bilhões. 

“Os Data Centers tendem a perder a certificação, negócios no longo prazo. Em outras palavras, se permanecer o terreno onde está designado pelo Governo, o Ceará vai perder”.

O executivo da TelComp lembra que já existem cabos submarinos ligando São Paulo aos Estados Unidos. 

“Não se trata de achismo. É uma realidade. Esses cabos foram instalados na Praia do Futuro por se tratar de uma área que o Governo designou como um setor de Tecnologia. Então, a permanência da localização terrestre da indústria na terra representa uma quebra de contrato. Configura-se insegurança jurídica e para a infraestrutura do setor. E, novamente, insisto. Não somos contra a usina se instalar na praia do Futuro, apesar de não ser desejável. Mas, como está sendo proposto, não podemos aceitar”.

Histórico dos Cabos Submarinos no Brasil

O primeiro cabo submarino de telecomunicações no Brasil foi inaugurado em 1857, interligando a Praia da Saúde, no Rio de Janeiro, com a cidade de Petrópolis. A linha tinha extensão total de 50 km, sendo 15 km em cabo submarino.

Este cabo foi construído pela empresa inglesa The Submarine Telegraph Company e foi resultado do espírito empreendedor de Irineu Evangelista de Souza, Barão e depois Visconde de Mauá, que participou da organização e financiamento da instalação do cabo submarino.

Na década de 1990, foram inaugurados os primeiros cabos submarinos de fibra óptica no Brasil. O primeiro deles, o Festoon, foi colocado em operação em 1994 e interligava a cidade de Fortaleza, no Ceará, com os Estados Unidos.

Desde então, o Brasil tem investido cada vez mais na infraestrutura de cabos submarinos. Atualmente, o país conta com mais de 40 cabos submarinos, que conectam o Brasil a outros países da América Latina, Europa, África e Ásia.

A maior parte dos cabos submarinos no Brasil está localizada nas regiões Nordeste e Sudeste do país. Isso se deve à proximidade dessas regiões com os principais mercados consumidores de telecomunicações da América Latina e do mundo.

Isso permite que os brasileiros tenham acesso a conteúdo de outros países e que as empresas brasileiras possam exportar seus produtos e serviços para o exterior.

Conexão interregional e redes locais

Alguns cabos submarinos brasileiros conectam regiões do próprio país. Isso é importante para melhorar a conectividade entre as diferentes regiões do Brasil e para reduzir os custos de telecomunicações.

Já outros interligam pontos de acesso à internet e outros serviços de telecomunicações ao fornecer acesso à internet e a outros serviços em áreas remotas do país.

Saiba mais sobre alguns pontos esclarecidos pela Cagece e Consórcio Águas de Fortaleza

> Em 2022, a Cagece já atendeu a uma solicitação de mudança de 500 metros do ponto de captação, em relação aos cabeamentos. Essa alteração atende às regulações internacionais de proteção dos cabos submarinos. 

Essa mudança deverá representar,  entretanto, um aumento na ordem de R$ 35 a 40 milhões para a execução do projeto. Se a usina não for construída na Praia do Futuro, a planta será bem mais cara, pois serão acrescentados gastos com adutoras até os reservatórios de Fortaleza e, essas mesmas poderiam cruzar com as fibras ópticas no continente.

Água de qualidade

>A Praia do Futuro foi escolhida para receber a planta pois possui água com excelente qualidade, boas correntes marinhas para dispersar o rejeito e é próxima dos reservatórios da Cagece. Tudo isso reduz obras nas vias públicas e gera menor valor de investimento e custeio.

> A área terrestre da Praia do Futuro convive com redes de água, esgoto, gás, drenagem, energia, cabos de internet e linhas férreas sem nunca ter havido interferência por parte de nenhuma, em relação a outras. 

A Cagece informa que realiza há décadas obras e manutenções na área, sem nunca ter causado nenhum dano à operação de cabos de internet.

Segurança Hídrica

>Trata-se de um projeto de segurança hídrica que tem como objetivo diversificar as fontes de abastecimento do Ceará, fazendo com que a distribuição de água não dependa apenas de chuvas. Ele faz parte do Plano de Recursos Hídricos do Ceará e do plano Fortaleza 2040. 

> Há de se destacar que o mundo vive hoje uma situação anunciada de mudanças climáticas, com previsão de forte El Niño para os próximos anos, o que significa cenário de estiagem para a região que, inclusive, está inserida no Semiárido.

> A Cagece destaca ainda que os argumentos das referidas empresas não apresentam nenhuma justificativa técnica que inviabiliza a construção da planta, que conta com uma série de estudos ambientais. Foram cumpridos todos os processos de critérios técnicos, consultas e audiência pública para garantir a transparência e participação de entidades e sociedade civil. 

> A companhia reforça o compromisso com a prestação do serviço de abastecimento de água e as políticas públicas de convivência com o Semiárido por meio da busca de soluções para diversificação da matriz hídrica, a exemplo da planta de dessalinização. 

>A Cagece assegura que é plenamente possível a convivência harmoniosa entre as estruturas da Dessal do Ceará e cabos submarinos na região da Praia do Futuro. 

*Matéria produzida para edição 202 da REVISTA NORDESTE pela editora do EJ, jornalista Luciana Leão. O EJ é colaborador da revista NORDESTE. Leia aqui a edição completa

 

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Luciana Leão

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