Retrofit, instrumento a se considerar à preservação de edifícios patrimoniais?

 

Meu Caro Amigo:

 “Começar um caminho novo dá medo. Porém, a cada passo que damos, conseguimos perceber o quão perigoso era ficarmos quietos”

 

Voltei…vi esta frase do Roberto Benigni, ator e diretor de cinema, criador do filme “A vida é Bela” e inicio com ela este novo encontro.

De certa forma, a ideia de Benigni reforça e justifica este novo escrito que compartilho com você, minhas angústias e preocupações diante de fatos inerentes ao meu trabalho profissional e que não afeta apenas o nosso Brasil.

Reflexões

Meses atrás, recebi um convite para participar de um evento sobre “Retrofit” no Recife. Pelo que conhecia até o momento sobre o assunto, recusei.

Afinal o Retrofit trataria, por um lado, da modernização de máquinas e equipamentos e, por outro, na construção civil, visaria a adaptação de espaços arquitetônicos obsoletos à modernidade por meio da introdução de todo tipo de tecnologia de ponta que estivesse sendo oferecido no mercado, sem muita preocupação além da tecnificação da arquitetura, espaços urbanos ou ambientais.

Nesse ponto de vista muito particular, estar no evento, em princípio, não contribuiria na soma de conhecimentos úteis para minha especialidade ou para a área de profissionais dedicados à preservação de sítios históricos e culturais.

A busca

Passado o momento inicial, e do jeito que sou, não pude ficar no meu quadrado fingindo que ainda estaria com a razão, mantendo-me no achismo habitual sem a vontade de procurar as razões das coisas por um simples comodismo.

Debrucei-me então sobre a questão. Tinha que desvendar o que realmente é e qual a utilidade do retrofit para a arquitetura e, sobretudo, a viabilidade e forma de aplicação nas intervenções em sítios históricos e culturais.

As origens

Minha curiosidade fez com que fosse até as origens do tema de forma a poder conhecer melhor, entender e compreender.

Segundo as fontes pesquisadas, retrofit, ou retrofitting, é um termo criado na última década do século XX para definir um sistema que visa a modernização de veículos e motores que ganhou e vem ganhando espaço na Europa e Estados Unidos.

O tempo

Antes de seguir em frente com minhas deduções sobre o ponto, é preciso levar em conta o momento em que vivemos hoje, 2023, primeiro quarto do século XXI.

Passamos por um tempo em que as sociedades vem se apercebendo da necessidade da recuperação e da preservação ambiental, no que também se inclui a arquitetura.

Principais observações

Os principais aspectos que dizem respeito à arquitetura são a diminuição da poluição pela emissão de carbono, o cuidado maior com o meio ambiente, produção de máquinas e equipamentos mais eficientes, eliminação de resíduos e efluentes inertes ao meio ambiente, eficiência energética com adoção de sistemas de energias renováveis, recuperação e uso de técnicas construtivas de arquiteturas vernáculas, e sua adaptação às características edafoclimáticas das diferentes regiões.

A que se propõe

Partindo dessa percepção, deve-se analisar detalhadamente o que  efetivamente se propõe o retrofit no campo da preservação e suas prováveis consequências ao longo do tempo.

Aqui faço então uma revisão de princípios que dizem a boa práxis da arquitetura patrimonial e os riscos que pode oferecer um sistema, novo no conceito, porém já é bastante utilizado neste campo, tratando de verificar os seus limites, evitando futuras frustrações e arrependimentos por intervenções equivocadas.

É bom assinalar: estas já estão aparecendo.   

Seria um novo horizonte?

A modernização alcançada pela aplicação do sistema de retrofit teria o propósito de fazer com que produtos considerados obsoletos pudessem ganhar novo horizonte de vida, dentro das exigências modernas, otimizando a sua performance e fazer com que os mesmos oferecessem maior eficiência,  ecologicamente funcionais e com menor consumo de energia. Tudo isso a preços pouco convidativos na área automotriz

 

Exemplo de retrofit em veículo antigo. Conversão de veículo a combustível fóssil por energia elétrica. Foto: Internet

Posteriormente, este sistema ou método, passa a ser aplicado também na construção civil em geral, com os mesmos princípios aplicados nos motores e veículos e ainda propiciando aos imóveis uma vida mais longa, uma vez que o uso destes espaços volta a oferecer condições adequadas para sua habitabilidade.

Estes ganhos, importantes sem dúvida, são inseridos dentro de um maior conforto térmico, a utilização eficiente dos meios naturais de insolação e ventilação com a consequente economia e maximização no uso de energia.

Ao mesmo tempo se promove o reuso de aguas servidas (devidamente tratadas) ou de chuva assim como a produção e uso de energias renováveis com a obtenção de uma maior eficiência energética, o que propicia uma consequente valorização dos imóveis.

É oportuno recordar que o processo de “modernização” ou “atualização”, assim como a própria manutenção dos bens fabricados, construídos, etc., existe desde que estes foram sendo criados pelo homem. Então pode se afirmar, sem medo de errar, que a ação de processo de melhorá-los com a finalidade de preservá-los existiu sempre.

Os indivíduos aprenderam a valorizar seus bens por uma série de fatores, entre eles a necessidade deles a utilidade oferecida por aqueles bens, o que ocasiona a necessária dedicação para a sua conservação. Então, a palavra retrofit é nova, porém o processo já existia, digamos sem um nome próprio que o identificasse.

Assim, com o decorrer do tempo o retrofit como tal, começa a ser aplicado também em edifícios patrimoniais. Reforçando aqui, que por razões diferentes, além da necessária preservação dos bens construídos, a dita modernização já estava acontecendo de forma natural e respaldada pelas próprias cartas internacionais dentro dos devidos limites.

Sítios históricos

No campo da preservação de sítios históricos e culturais existem diversos procedimentos que são admitidos com esse fim e que se definem muito bem em distintas cartas de cunho técnico iniciando na Carta de Atenas, na Carta de Veneza e ainda na Carta de Burra, da Austrália.

Todas estas cartas são unanimes em afirmar a “manutenção” como forma mais correta de preservação, sendo considerada a “restauração” como a mais invasiva e que exige maiores estudos.

Na Carta de Burra define-se de forma clara que a restauração é a volta de um determinado bem a um estado imediatamente anterior, o que garante a sua preservação para as gerações futuras.

Já o retrofit, por outro lado, como já assinalei, visa a modernização de espaços obsoletos através da adaptação de novas tecnologias que permitam o usufruto destas estruturas construídas com o conforto que a indústria e as diferentes tecnologias oferecem e a sociedade exige.

A sua aplicação nos edifícios patrimoniais deverá ser muito bem avaliada.

Alguns autores quando se referem às vantagens do retrofit em edifícios patrimoniais referem-se às possibilidades de adaptação de novas instalações e de fachadas.

Faria aqui uma ressalva: instalações sim (já vem sendo feitas há décadas), porém fachadas não, salvo necessidade expressa em possibilitar o acesso universal, isto com a devida parcimônia e ainda com a avaliação de cada caso.

Tecnologias não se excluem

Percebe-se pelas definições e pela prática, que ambas tecnologias não se excluem, ao contrário, podem perfeitamente conviver em apoio mútuo, fato que pode ser comprovado em vários casos de aplicação concomitante de ambos sistemas.

Verifica-se então, entre elas, que existe um objetivo comum: o da preservação dos bens patrimoniais construídos que, através das técnicas oferecidas por cada uma delas, chega-se à possibilidade de aumentar a vida útil destas obras pela reabilitação do bem, acompanhado de um usufruto correto e constante após a intervenção.

Desta forma garante-se a continuidade do patrimônio construído, atendendo aos princípios e proteção patrimonial, sobre a manutenção e melhoria do meio ambiente, mantendo o seu uso original ou implantação de novos usos.

Reforço que esta troca não provoque uma alteração dos seus valores estéticos do bem, o que promoverá uma dupla valorização: primeiro da própria obra arquitetônica e, paralelamente, a valorização do espaço da sua implantação, seja urbana ou rural.

Restauração – Retrofit

Deve-se frisar que estas ações, restauração-retrofit, devem necessariamente obedecer às orientações sobre a forma de intervenção em cada edifício, sempre dentro do estrito limite dos delineamentos estabelecidos pelas cartas internacionais e legislações locais.

Não deverá ser permitido que em nome de uma modernidade, que pode ser passageira, se realizem alterações plásticas e/ou estéticas de qualquer monumento.

Lembremos que somos os responsáveis temporários pelos cuidados destes bens que serão passados a gerações futuras na mesma ou melhores condições de como as recebemos.

Mostro aqui, en passant, casos de retrofit, restauração e erros de interpretação de ambos princípios.

Este texto é uma primeira parte da análise sobre a possibilidade de um novo instrumento para a reabilitação de espaços arquitetônicos e urbanos.

Num segundo momento vou discorrer sobre casos práticos de intervenções bem-sucedidas e aquelas que, de alguma forma, feriram os princípios básicos da preservação de bens culturais construídos.

São Luís no Maranhão. Reabilitação de edifício para acolher famílias sem teto. Convenio com BID. Foto: Internet

 

À esquerda edifício moderno dentro das fachadas de um edifício patrimonial demolido. Valparaiso, Chile.   À direita, um caso similar, a Torre Hesrts, New York. Arquiteto Norman Foster. Imagens captadas em sítios de Internet

Museu Janete Costa de Arte Popular, Bairro do Ingá, Niterói. Arq. Mario Costa.
Foto: Rodrigo Baeta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Roque Samudio

Roque Samudio é arquiteto-urbanista formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Especialista em Patrimônio Histórico e Cultural. É arquiteto especialista em Patrimônio da Secretaria Nacional de Cultura do Governo do Paraguai.

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