Quando olhamos e não vemos

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…

…Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)

Mario Quintana (Poema O Mapa)

 

Meu caro amigo, hoje volto com mais perguntas que propostas ou respostas. Eu, que penso e repenso na cultura, no patrimônio cultural, nos sítios históricos, que vivo isso e disso, comecei a me questionar sobre um dos locais onde essa cultura se cria, se assenta, se divulga e evolui: a cidade.

Num descontraído passeio observando esse universo com mais atenção, descobri coisas que não sabia que estavam lá, já de tempos passados. Continuei procurando com maior cuidado e entendi o significado de “olhar sem ver”.

A cidade é uma espécie de museu a céu aberto, onde se expõem ruas, praças, edifícios simples ou suntuosos com as suas características únicas de sistemas construtivos passados e presentes, como também os hábitos e costumes das comunidades, onde se reconhece o modo de ser das pessoas e são estes testemunhos indiscutíveis do passo do tempo.

Pelas ruas do Recife Antigo. Foto: Pixabay

A cidade é um sítio em permanente regime de câmbios, inclusive nos detalhes mais ínfimos, sendo assim uma metamorfose constante, e para ser sincero, descobri que não a conheço.

Nesse emaranhado de componentes da urbe, percebo que existem coisas que não se mostram aos olhos descuidados, ou os olhos descuidados, não percebem sua existência.

O desconhecido

Perguntei-me então se a cidade era exatamente como imagino ou como a vejo. Que parte da cidade da qual tenho consciência é verdade, que parte dela me é alheia, desconhecida, e então, a partir daí, nos entendermos melhor, a cidade e eu.

Os artistas desconhecidos. Foto : Pixabay

Percebi que até hoje não soube olhar, e o pior, ainda não aprendi a ver. Outras urgências e prioridades me impedem e assim passo a viver num lugar desconhecido, usufruindo do meu próprio lugar, como um desconhecido. Percebeu?

As portas abertas
O Marco Zero, no Recife Antigo. Foto: Pixabay

A cidade está aí! Ela se oferece a todas as horas do dia e da noite, porém não a conheço, quer me contar estórias e não ouço, quer me mostrar o passo do tempo e não vejo, quer me mostrar o novo e nem sei que o novo existe.

A velocidade da vida atual, meu caro, não nos permite perder tempo. Saímos atropelando tudo, olhando a cidade com medo, por uma necessidade de sobrevivência, de segurança, de integridade pessoal ou comunitária, mas sem necessariamente ver com a vontade

O histórico edifício do cinema São Luiz. Foto: Pixabay

e, com a curiosidade necessária, com o desejo de perceber todos os detalhes e as nuances da cidade a cada passo.

Provavelmente tenhamos nascido numa cidadezinha, num pequeno povoado que não aparece no mapa, ou numa cidade grande que apesar de estarmos sempre no mesmo lugar, vamos e voltamos sem a consciência do que temos à nossa frente.

Tudo passa como uma câmara rápida, tão rápido como quem vai perder o trem para o trabalho, atropelando tudo e todos.

A decisão mais sábia

Decidi então fazer a prova dos nove, saber se é verdade que não conheço a cidade onde eu moro, o meu próprio lugar.

O prédio colossal da Associação Comercial. Foto: Pixabay

Tomei um tempo e saí a percorrer a cidade, saí para despi-la com os olhos. Fui caminhando com rumo certo, parti com a curiosidade de quem abre os olhos pela primeira vez. Queria abarcar esse mundo de um só olhar e não podia. Há que ser paciente.

Precisava reconhecer as ruas, as praças sombreadas por centenários arvoredos, diferenciar seus cheiros e odores, identificar os edifícios e suas cores.

Entender suas alturas e aberturas, seus balcões, janelas e as elegantes cúpulas que sobrevivem prateadas ou cor de chumbo olhando para o mar ou o continente, ao norte ou sul.

Precisava imaginar o passo dos fantasmas dos bondes, dos quais sobraram apenas os seus trilhos, todos querendo ressaltar na paisagem urbana para aparecer nas fotos dos turistas…. Os turistas….

Eles devem conhecer melhor esta cidade, afinal eles vieram para ver o que eu apenas me limitei a olhar de relance por todos estes anos.

A descoberta

Descobri nesse tempo, meu caro amigo, que ela muda e é muda. Vai mudando de forma permanente, em silêncio, suas cores, seus volumes e pessoas, com todos seus elementos que a tornam viva e que insistimos em não percebê-la como realmente é.

Percebi que a cidade nunca está morta, para por momentos, porém não morre, apenas adormece. Mostra-se de cara e clara a quem, independentemente dos passeios descuidados, receberá a todos sem nenhuma distinção.

Dou-me conta então, que sempre olhei no máximo, até a altura dos meus olhos, sem perceber que, um pouco mais acima da minha linha de horizonte, existia outro mundo, complementar, que preenche e completa a paisagem urbana que eu sempre havia visto amputada.

Começo a ver a mesma cidade. A que se oferecera sempre aos meus olhos, porém a via de uma forma diferente. Olho-a com a vontade de descobri-la, conhecê-la a fundo, e ela se entrega novamente a meus olhares curiosos. Agora sim, a vejo e reconheço, percebo o quanto havia perdido, passado despercebido e sem a noção do quanto ainda há por descobrir, porém sei que ainda há tempo.

E você, realmente conhece a sua cidade?

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Roque Samudio

Roque Samudio é arquiteto-urbanista formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Especialista em Patrimônio Histórico e Cultural. É arquiteto especialista em Patrimônio da Secretaria Nacional de Cultura do Governo do Paraguai.

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