Passaporte Digital de vacinas foi testado pela 1ª vez no Brasil, em Afogados da Ingazeira

Numa iniciativa inédita, a prefeitura do município do sertão do Pajeú colocou em uso o Chronus Platform i-Passport, da startup franco-brasileira Mooh!Tech. A plataforma funciona como um passaporte de profilaxia, onde todos os dados sobre vacina e testes constam no documento digital.

Patente registrada desde 2013 já está sendo usada em outros municípios e estados brasileiros, e em acordo com Federação Pernambucana de Futebol (FPF) e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para jogos, além de países como Israel, e em curso para estados membros da União Europeia com o Certificado Verde Digital. 

Luciana Leão

Especial para o JS

Quando, em 2013, a startup franco-brasileira Mooh!Tech desenvolveu o Chronus Platform i-Passport para democratizar o acesso a vacinas em países da África e Ásia, onde a equipe já fazia consultoria para “Smart Cities”, não imaginaria que a tecnologia poderia ser implantada pioneiramente, no Brasil, em Afogados da Ingazeira, no Sertão do Pajeú, em 2020, para apoiar o poder público municipal no planejamento e combate à Covid 19.

Foi o empresário Jurandir Pires, que é nascido na cidade de Afogados da Ingazeira, quem apresentou ao então prefeito à época, José Patriota, a plataforma do Chronus. “Nos conhecíamos de outros trabalhos, e o Jurandir Pires nos apresentou ao prefeito José Patriota”, disse Everton Cruz, CEO da Mooh!Tech em entrevista exclusiva para o Jornal do Sertão.

“Nossa filosofia na Mooh!Tech sempre foi democratizar oportunidades interiorizando o acesso a novas tecnologias e diminuir desigualdades sociais, então, por esse motivo sempre olhamos para onde os demais players não olham, para as pessoas e para as pequenas cidades do interior”, disse Cruz, referindo-se ao projeto piloto iniciado no Brasil, a partir de Afogados da Ingazeira.

Segundo o CEO da Mooh Tech, o prefeito da cidade à época, José Patriota, foi receptivo à solução do aplicativo. “Ele nos ajudou a entender os processos do Sistema Único de Saúde (SUS) e, dessa forma, aprimoramos a solução para que a partir de Afogados da Ingazeira, a tecnologia pudesse ser adotada imediatamente por qualquer cidade brasileira independente do tamanho para que a população fosse beneficiada sem necessidade de adaptações e nem burocracia desnecessária”, lembrou o CEO da Mooh!Tech.

Do Sertão para o mundo

Pelo mundo, o protótipo foi testado em 2019, no Sul da França, e serviu como base tecnológica para o estado de Israel. Em fevereiro deste ano, foi utilizada, pela primeira vez, durante a Super Bowl, que é a final do campeonato da NFL (National Football League — em tradução livre, Liga Nacional de Futebol, principal divisão do futebol americano), nos Estados Unidos, para um público de 25 mil pessoas, primeiro evento esportivo com torcida no mundo, nesta pandemia.

Em recente anúncio feito pela União Europeia (UE), os estados membros irão implantar um aplicativo intitulado “Certificado Verde Digital” com conceito próprio da UE, mas com a tecnologia desenvolvida pela Mooh!Tech, por meio do Chronus Platform i-Passport. A patente do conceito do passaporte de profilaxia é de propriedade da Mooh!Tech, desde 2013. 

 “A base da tecnologia é nossa, só não o nome a ser conceituado em cada país”, explicou Everton Cruz. Segundo ele, todos os lugares que utilizarem a tecnologia patenteada pela empresa franco-brasileira terão que desembolsar em forma de royalties. “Eles entram em contato conosco para saber como funciona nossa plataforma e entregamos uma API, como se fosse um código aberto de utilização e nos pagam em forma de royalties por ano”, acrescentou Cruz. Não há um valor pré-definido da patente, mas gira em torno de 50 milhões de dólares, segundo o CEO da Mooh! Tech, Everton Cruz.

Como surgiu a ideia do Chronus i-Passport?

“A ideia do passaporte surgiu quando nos deparamos que sempre precisávamos apresentar o passaporte de profilaxia de febre amarela e tínhamos dificuldade ou para achar o cartão de papel antigo ou tomar a vacina em alguns países por causa da dificuldade burocrática de imunização em nações diferentes”, lembrou Everton Cruz, CEO da Mooh Tech.

Além desse contexto de desburocratizar o acesso às vacinas, a startup franco-brasileira levou em conta o fato positivo que as vacinas fazem a diferença na saúde básica, onde para cada um dólar investido em imunizantes, 44 são devolvidos para a sociedade em forma de economia no sistema de saúde pública, além do que a imunização ajuda na prevenção de 2 a 3 milhões de mortes anuais no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Parcerias fechadas no Brasil

Alguns locais, por exemplo, já fecharam ou estão em vias de fechamento de contrato com a empresa e todos receberam gratuitamente o aplicativo, entre as quais as cidades de Juazeiro do Norte (CE), o governo do Distrito Federal, Guarujá (SP) e o município de Cortês, na Mata Sul de Pernambuco. 

“A Federação Pernambucana de Futebol firmou contrato conosco para fornecimento de passaporte a todos os profissionais envolvidos com futebol”, disse Cruz. “Inclusive, o Chronus Platform i-Passport iria fazer a final do campeonato pernambucano, mas o governador de Pernambuco, Paulo Câmara, avaliou adiar por conta das altas de casos registrados neste mês de maio, no Estado”, disse Everton Cruz.

 Mas, o executivo adiantou ao JS, que está em tratativas e planejamento para que a plataforma possa ser utilizada no Campeonato Brasileiro de Futebol. Outras parcerias estão em processo de fechamento como as cidades de Goiana, Paulista, Olinda, na Região Metropolitana do Recife, João Pessoa, na Paraíba, assim como no estado do Mato Grosso e Ceará. 

Tecnologia na palma da mão

A solução encontrada pela Mooh!Tech funciona como um passaporte de profilaxia. O aplicativo registra informações como vacinas e resultados de testes, tendo a funcionalidade de um cartão de vacinação nacional e internacional e um passaporte, aliada à agilidade e praticidade de um aplicativo de celular, com uso de tecnologia blockchain e algoritmo de Árvore de decisão J48. 

A tecnologia blockchain garante que o documento é único e inviolável, pois registra a identificação do usuário e, por isso, somente ele tem acesso ao i-Passport, além de assegurar total validade do documento digital. A Árvore de decisão é baseada em algoritmos de predição J48, que mineram os dados da BIGData e assim prevêem possíveis comportamentos epidemiológicos e ajudam a prevenir novas epidemias ou pandemias. 

“Em outras palavras, o J48 fica analisando os dados registrados de vacinação e cruzando as informações das cidades e vacinações para criar padrões e identificar matematicamente se há algum buraco nos diversos tipos de imunização (varíola, febre amarela, covid, gripe, etc) e identificar risco de novas pandemias e epidemias”, explicou Everton Cruz.

Além do controle da disseminação do vírus, com o uso contínuo do app, condicionando o acesso aos lugares de convívio social ao QR Code de status liberado na ferramenta, os registros feitos, apenas disponíveis para a autoridade de saúde local, seguem todas as diretrizes de privacidade dos usuários, e permitem o levantamento de dados cruciais para  desenvolver um planejamento de ações voltadas ao combate e controle da Covid-19.

“O i-Passport não tem limite para registros, não se deteriora e agrega todas as informações com precisão e cuidado. E pode ir além, pois os usuários podem ter no app, outras informações relevantes como alergias, comorbidades e resultados de outros testes laboratoriais. Este diferencial permite que cada pessoa individualmente tenha acesso, a qualquer momento que quiser ou precisar, como em caso de acidente ou mal-estar, um histórico médico básico mas que pode salvar vidas”, explicou o executivo da startup franco-brasileira.

Ferramenta de gestão

Na opinião do CEO da Mooh!Tech, enquanto a imunização ainda está restrita a uma parcela da população, o i-Passport é a única alternativa de planejamento que assegura um retorno dos cidadãos às atividades do dia a dia de maneira segura.

“Todos aqueles que estiverem imunizados com as duas doses das vacinas contra Covid 19, ou queiram tomar a vacina quando disponível nas redes pública ou privada de saúde, receberão, gratuitamente, o app Chronus i-Passport.  O objetivo é, em especial, proporcionar, de forma planejada e segura, a oportunidade para que os cidadãos, tão sobrecarregados emocionalmente por causa da pandemia, possam aliviar esse estresse através da retomada do contato social”, acredita Cruz.

O app também abre espaço para acesso a hotéis, academias, shows e vários outros ambientes de lazer e trabalho, desde que seja adotado por seus gestores. Países como Israel, por exemplo, já adotaram este mesmo conceito e várias atividades já estão voltando a ser reativadas com pessoas imunizadas ou testadas. Por seu uso ser condicionado à vacinação, caracteriza-se como auxílio ao controle de propagação da Covid 19 e como uma forma de viabilizar o cumprimento mais efetivo e seguro do planejamento desenvolvido pelas autoridades sanitárias governamentais.

“O Chronus i-Passport é uma solução de registro e identificação de saúde. Seu uso contínuo permite que apenas as pessoas com status de vacinação contra a Covid-19 circulem sem restrições. A adoção do i-Passport possibilita diminuir consideravelmente e, até mesmo, eliminar, muitos dos protocolos hoje necessários para a retomada de atividades. Ao utilizar o i-Passport como uma credencial no controle de acesso a locais públicos ou privados, várias medidas, complexas para serem atendidas, deixam de ser essenciais”, defendeu o executivo.

Além das fronteiras

O i-Passaport também está em processo de a doação para países como Paraguai, Peru, Colômbia e Argentina. No Brasil, a startup também assinou contrato com uma grande empresa do setor bancário que comprou passaportes para fornecer a todos os funcionários e registrar vacinas como H1N1 e Covid 19.

 “Fornecemos a tecnologia para um grande grupo proprietário de shoppings no Sudeste e Nordeste e uma rede de cinemas com mais de 600 salas em todo o Brasil com objetivo de fornecer controle de acesso com os passaportes em suas unidades, permitindo assim que apenas pessoas vacinadas ou testadas com antígeno negativo estejam aptas a frequentar seus espaços e assim sejam ambientes seguros e livres da doença”, adiantou o CEO, que finalizou em maio contrato com uma companhia aérea para verificar o status de vacinação dos passageiros e, dessa maneira, só serão autorizados embarques de pessoas imunizadas e que tenham registrado no passaporte teste RT-PCR com antígeno negativo para a Covid 19.

Como surgiu a Mooh!Tech

A Mooh!Tech começou quando o baiano Everton Cruz trabalhava numa joint venture da Microsoft. “Inicialmente desenvolvemos uma solução utilizada no Brasil com o nome de “Sempre Alerta”, que servia para recebimento de chamados de serviços de emergência e segurança de serviços como Polícia, Bombeiros, SAMU e outros, e além de tornar os chamados mais assertivos e diminuir prejuízos causados por trotes”, lembrou Cruz.

A solução ganhou o mundo e foi internacionalizada para Europa (Portugal, Espanha e França), EUA (Los Angeles, Washington e Minneapolis) e África (Uganda, Nigéria e Moçambique). Dentro da solução “Sempre Alerta”, disse Cruz,  existiam módulos ligados a serviços específicos como o Torcedor Alerta (Futebol e Esportes) voltado ao combate a violência em eventos esportivos, Patrulha do Batom, voltado ao enfrentamento à violência contra a mulher e o feminicídio, o Liberté, amplamente utilizado nos protestos da morte de George Floyd nos EUA para denunciar violência e racismo contra pessoas negras e LGBTS. 

“Hoje a nossa solução é a base de planejamento por exemplo da polícia de Los Angeles e da Gendarmerie na França”. A startup foi formalizada inicialmente no Recife, em 2016, e a primeira sede foi no prédio do antigo café e restaurante Roda Café, no bairro do Recife Antigo. “Ali começou a Mooh Tech. Em seguida mudamos para São Paulo e ficamos sediados juridicamente e fisicamente no ecossistema de inovação do Bradesco, o iNovaBra”, afirmou Cruz. 

Atualmente, a startup sob o comando de Everton Cruz, natural da Bahia, mas pernambucano de coração, tem sede em Paris e escritórios em São Paulo, no InovaBra e no Recife, mas estuda a possibilidade de abrir um escritório comercial no Brasil devido à demanda crescente por causa do i-Passport. No mercado, a startup franco-brasileira está avaliada em 100 milhões de dólares. 

“Acredito que passei mais tempo vivendo e desenvolvendo negócios em Pernambuco do que na Bahia e se um dia eu tiver mais uma casa em algum lugar, será com certeza em Pernambuco. Minha esposa e mãe da minha filha é pernambucana e tenho dois filhos que ainda moram em Pernambuco até estarem no período de vir fazer faculdade aqui na França”, disse o CEO.

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