A Força real da Bahia

Saiba a dinâmica da economia baiana fortalecendo os macro investimentos. Como acontece?

A Bahia é um dos nove estados do Nordeste com uma diversidade econômica singular, o que lhe proporciona uma posição estratégica para a região e Brasil.

Nos últimos anos, há de se reconhecer uma mudança de participação de setores no PIB estadual, com forte atuação no agronegócio e na infraestrutura do estado.

Em entrevista exclusiva à NORDESTE, o secretário de Desenvolvimento Econômico, Angelo Almeida, elencou as principais prioridades do governador Jerônimo Rodrigues e como alavancar mais investimentos para o Estado.

Infraestrutura em transportes e logística como a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL), a Ponte Salvador-Itaparica e o novo aeroporto em Porto Seguro são alguns dos projetos estruturadores.

Além desses, o secretário adiantou que será instalado na Bahia o primeiro projeto de produção de Hidrogênio Verde (H2V) em escala industrial, um investimento de U$1,5 bilhão, com produção de 100 mil toneladas de Hidrogênio Verde (H2V).

NORDESTE– A que podemos atribuir essa mudança na economia baiana, onde se verifica um crescimento expressivo do agronegócio, em regiões como Matopiba e municípios como Barreiras e Luís Eduardo Magalhães? Está correto afirmar isso?

ANGELO ALMEIDA- O crescimento expressivo do agronegócio se dá em função das excelentes condições de clima, terra, água da região e a eficiência dos produtores e empresários do agronegócio no Oeste da Bahia, que produzem com altíssima qualidade e eficiência grãos como soja, milho e algodão, com produtividade maior do que a maior parte do mundo. Isso se deve também ao boom das commodities agrícolas, que nos últimos anos apresentaram preços excepcionais e, portanto, estimularam muito os novos plantios.

NORDESTE– Quais serão os principais projetos estruturadores para que a Bahia permaneça na liderança da Região? E quais segmentos o senhor elenca como prioritários para maximizar a geração de empregos e o combate à pobreza?

ANGELO ALMEIDA – O governo tem alguns projetos estruturantes. A Ponte Salvador-Itaparica é um deles. O governador Jerônimo Rodrigues está empenhado em acelerar processos nos próximos 100 dias para a construção do equipamento. A ideia é começar licitando partes mais rápidas, a exemplo da Ponte do Funil, que faz parte do complexo viário Ponte Salvador-Itaparica.

A Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL), que é fundamental para a consolidação de um novo corredor logístico de exportação para a Bahia e o Brasil. O modal promoverá um novo ciclo de crescimento regional da mineração e do agronegócio, por isso, o empenho do estado para que a ferrovia chegue o quanto antes ao Oeste da Bahia.

Novo Aeroporto em Porto Seguro

O novo aeroporto da rota da Costa do Descobrimento, em Porto Seguro, vai ser um estimulador tanto de atividades econômicas quanto turísticas. A ideia é ampliar a possibilidade de voos na malha baiana, além de conectar a região da Costa do Descobrimento com a Europa e Estados Unidos. O Aeroporto de Porto Seguro é um dos equipamentos regionais mais movimentados do Brasil, chegando a ocupar a terceira posição em movimentação no Nordeste.

Temos ainda a luta do governo estadual junto ao governo federal para a construção de novas linhas de transmissão, principalmente na região Oeste e na região do Centro do estado, devido ao enorme potencial eólico e solar. Mas acredito que com o governo Lula, esse seja um projeto comum entre as duas instâncias.

Saúde, educação e rodovias

Temos os projetos na área de saúde, que continuam mantidos no governo Jerônimo com a ampliação e construção de hospitais e policlínicas. Além dos investimentos que o estado tem feito na educação, com escolas de tempo integral em todo o estado. Temos ainda a solicitação do governo baiano para que haja a duplicação da BR 101 e 116 dentro do estado.

Reindustrialização do Estado

Quanto aos segmentos que temos como prioritários para maximizar a criação de empregos e combater a pobreza, destaco aqueles ligados à indústria, ou seja, a reindustrialização do país e do estado.

O estado está tentando trazer uma montadora para substituir a Ford, mas é preciso salientar que a Ford fechou a fábrica, mas mantém dentro do Cimatec Park, em Camaçari, o Centro de Desenvolvimento e Tecnologia do Brasil, que emprega 1,5 mil especialistas dedicados ao desenvolvimento de projetos globais da marca.

Além disso, temos tentado trazer novas indústrias para todas as regiões do estado, a exemplo do setor calçadista e químico. Temos também a questão do hidrogênio verde que fará com que as energias renováveis se juntem com a indústria química e a de combustíveis. Temos também buscado trazer a industrialização para o Oeste da Bahia, onde queremos associar a produção agrícola à produção industrial na região.

NORDESTE- Recentemente foi anunciado a primeira planta de H2V em escala industrial. O que diferencia tal projeto dos já em curso no estado do Ceará, por exemplo?

ANGELO ALMEIDA – O projeto desenvolvido no Ceará é de P & D (Pesquisa e Desenvolvimento), sendo assim a molécula não é comercial. Já o projeto da Unigel, esse sim é um grande projeto de escala comercial com investimento de 1,5 bilhão de dólares e inauguração prevista para final de 2023. Até 2027, a fábrica baiana produzirá 100 mil toneladas de Hidrogênio Verde (H2V).

Vale salientar ainda que a Bahia foi o primeiro estado a instituir por Decreto (nº 21.200 de 2 de março de 2022) um Plano Estadual para Economia de Hidrogênio Verde (H2V) e é o único a ter incentivo fiscal para diferimento de ICMS para energia elétrica usada na planta de hidrogênio verde, quando essa energia for advinda de energia renovável.

O Governo do Estado tem contrato assinado com o Senai Cimatec, maior centro de tecnologia do Brasil, para desenvolver modelo matemático que auxiliará na identificação e escolha de sites de produção do H2V na Bahia, mapeamento da cadeia produtiva, estudos de modelos internacionais, avaliação das condições de mercados, quais são as potencialidades e o que precisa ser feito do ponto de vista de política pública.

Além disso, temos uma Comissão Especial formada pela SDE, Secretaria de Meio Ambiente (Sema), de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti) e de Infraestrutura (Seinfra) e do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), que vai auxiliar no cumprimento do decreto para concretizar nos próximos anos o plano e programa estadual para a economia do Hidrogênio Verde no âmbito do Plano Plurianual (PPA).

A ideia é utilizar o hidrogênio verde para transformar a indústria baiana, já que o mundo aponta para a desfossilização da economia, usando cada vez menos combustíveis fósseis. O hidrogênio verde é oriundo de energias renováveis e o estado tem o maior potencial eólico e solar do Brasil, podendo fazer da economia baiana a protagonista do que será o novo cenário mundial.

NORDESTE – A matriz energética da Bahia vem sendo estimulada com projetos de alto desempenho principalmente eólica e solar. O que teremos pela frente, na geração de novos empregos?

ANGELO ALMEIDA – A geração de empregos é um indicador estimado pela SDE com base nos estudos realizados pela ABEEOLICA e ABSOLAR, que tomam como parâmetro a relação entre a capacidade instalada em Megawatts (MW) e o número de empregos que podem ser gerados por cada MW. Para o setor eólico consideramos 10 empregos diretos e indiretos por MW instalado, e para solar fotovoltaica 30 empregos diretos e indiretos por MW instalado.

Com o conceito acima formulado, podemos por exemplo, identificar quais serão os empreendimentos com entrada em operação prevista para o ano de 2023, com base nos dados disponibilizados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). Desta forma, e com base na capacidade instalada (potência outorgada) para esses empreendimentos, podemos estimar os seguintes números de empregos que podem ser gerados em toda a cadeia produtiva.

Eólica: 33 empreendimentos com previsão de entrada em operação em 2023 e com perspectiva de gerar 12 mil empregos.

Solar Fotovoltaica: 22 empreendimentos com previsão de entrada em operação em 2023 e previsão de gerar 21 mil empregos.

Protagonismo

O debate da mudança climática e a necessária descarbonização do meio ambiente aliada à crise energética europeia e asiática estão sendo determinantes para urgente transição energética. A Bahia é o estado que lidera a geração de energias renováveis e com a implantação da unidade de hidrogênio verde, combustível do futuro, no Polo Industrial de Camaçari, haveremos de alcançar rapidamente o protagonismo da energia verde. Com muito trabalho vamos buscar colocar a Bahia no protagonismo da energia verde.

NORDESTE– O setor de mineração também contribui com a diversificação da matriz econômica do Estado. Quais expectativas para esse segmento e como compactuar os investimentos com a sustentabilidade ambiental? Há também gargalos no segmento de mineração, principalmente na logística de escoamento… Existe essa preocupação no radar da SDE?

ANGELO ALMEIDA – Minhas expectativas são muito positivas, a Bahia tem o privilégio de contar com um solo muito rico em bens minerais, e de poder contar com uma empresa como a Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), que possui uma grande capacidade de realizar pesquisas em todo território baiano e alavancar grandes negócios no setor mineral.

A sustentabilidade, com toda a plenitude que essa palavra abrange, hoje é um pré-requisito para qualquer tipo de negócio e não pode ser diferente para o setor mineral. Somos entusiastas da mineração praticada dentro dos melhores critérios técnicos e dentro de um profundo respeito ao meio ambiente e à sociedade, principalmente às comunidades que vivem no entorno dos empreendimentos mineiros – sabemos que é possível, temos alguns exemplos muito positivos no estado, e vamos atuar para adequação daqueles que ainda não esteja atuando dentro desse espírito.

Gargalos na logística

Sobre logística a resposta é sim, esse, de fato, é um ponto crítico em nosso estado, pois nossa malha ferroviária (Ferrovia Centro Atlântica – FCA) nunca recebeu os investimentos compatíveis às necessidades do estado, e estamos somando esforços a outras instituições que estão engajadas nessa causa, visando sensibilizar o Ministério da Infraestrutura diante da situação, para que se possa preparar o cenário para estruturar o sistema ferroviário da forma que a Bahia necessita.

Ainda sobre esse tema, o Governo do Estado está dando todo apoio que lhe cabe às obras para implantação do Trecho 1 da Ferrovia Oeste Leste (FIOL), que estará pronto até 2026, viabilizando a movimentação de 60 milhões de toneladas por ano, com a BAMIN utilizando cerca de 40% desse potencial, os demais 60% dessa capacidade estarão disponíveis para outras mineradoras, agronegócio, e todos os demais setores que precisarem escoar seus produtos e receber insumos.

No último dia 8 de fevereiro, estive no Senai/Cimatec, onde foi apresentado pela Fundação Dom Cabral (FDC) estudo do Plano Estratégico Ferroviário da Bahia. O estudo, que foi muito bem recebido por inúmeras representações empresariais, contempla as necessidades reais que o estado tem para adequar uma nova malha ferroviária. Saímos da apresentação com muita esperança de resolver o gargalo que nós temos com o escoamento mineral e do agronegócio da Bahia. Cabe agora darmos encaminhamento, tratarmos com o governo federal com apoio do governador Jerônimo e do ministro Rui Costa.

O estudo, contratado pela CBPM, teve início em junho de 2022 e apresenta o potencial de demanda por ferrovias no Estado da Bahia e como o estado pode acabar com o seu isolamento logístico. Na apresentação, algumas propostas foram realizadas, a exemplo da criação de novos ramais ferroviários e a implantação da carga geral. A modalidade permite o transporte de diversos tipos de mercadorias, a exemplo de produtos manufaturados, combustíveis, alimentos e bebidas processados e outros produtos com maior valor agregado.

NORDESTE- O setor de serviços, de turismo, de entretenimento sempre teve um lugar de destaque no PIB estadual. Qual o cenário que a Secretaria de Desenvolvimento Econômico vislumbra para uma retomada mais assertiva?

ANGELO ALMEIDA – Mais integração da área de turismo, entretenimento e cultura com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, além de outras secretarias de estado, como a de Ciência e Tecnologia, para que se possa transformar esse setor na pedra de toque ou no movimentador de outras áreas do estado.

Então, na hora que você fala de turismo e entretenimento, você fala na necessidade de sistema de mobilidade, logística aérea e terrestre, hotelaria, serviços, uma série de coisas. A questão da integração é importante, e volto a citar o projeto estruturante do novo aeroporto de Porto Seguro será um estimulador tanto de atividades econômicas quanto turísticas. Essa integração como objetivo de estado de ter o turismo como ponto de centro para que outras coisas aconteçam: indústria, serviços, entre outros, é uma ação que se fará de agora em diante, de um turismo transversal e não isolado.

No último dia 13 de fevereiro, estive com dirigentes da Associação Comercial da Bahia e ficamos de implementar um grupo de trabalho para elaborar propostas inovadoras para o segmento de turismo e entretenimento do Estado.

* Matéria originalmente publicada na edição 193 da Revista Nordeste, produzida e escrita pela editora do EJ, jornalista Luciana Leão.

 

 

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Luciana Leão

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