A Cidade, patrimônio em permanente metamorfose

“Tá, tá bem,  isso que o mundo é feito de átomos… O mundo não está feito de átomos, o mundo está feito de histórias , o mundo deve estar feito de histórias,  porque são as histórias que a gente conta, que a gente escuta, recria, multiplica, as histórias são as que permitem transformar, o passado em presente. 

E que, também, permitem transformar o distante em próximo, o que está distante em algo próximo, possível e visível.”

Muriel Rukeyser

 

Meu caro, confesso que ao concluir o último texto me fiz a mesma pergunta do final do artigo: “… E você, realmente conhece a sua cidade?”. Me fiz a mesma pergunta.

Afinal, como poderia eu falar da cidade sem conhecê-la? Oh!! Que desafio agradável! Assumi então a responsabilidade de sair para a cidade e “relembrar”, “rever”, “reconhecer”, verificando até que ponto posso dizer que a conheço.

Parti então para rever a cidade, reconhecê-la. Reconhecer as mudanças e senti-la como um universo único que, como quase todas, traz ecos de épocas passadas.

A metamorfose

Observando com peculiar curiosidade, percebi que a cidade muda de forma permanente, não só ao longo dos anos, ela muda minuto a minuto. 

Perguntei-me como iniciar essa vivência da cidade? Comecei pelo começo, onde ela se inicia: do Marco Zero, onde começa tudo que é mensurável desde 1938.

Daqui a cidade se abre em leque, permitindo uma vista do início do continente, e às minhas costas, o atracadouro do porto, a contenção de pedras, que define o porto e por trás, sobre as pedras, as esculturas de Brennand.

 

Imagens do Marco Zero antes e hoje. A cidade muda no longo ou no curto espaço de tempo. Foto 1/Internet e Foto 2: Roque Samudio

 

Daqui a cidade está despida, vejo quase tudo. Estão aqui as ruas Alfredo Lisboa, Rio Branco, Marquês de Olinda, Barbosa Lima… Eu olho, vejo e consigo vislumbrar a perspectiva dos edifícios centenários, um cenário vivo que nos identifica e que fazem dela única.

Vejo ao fundo a silhueta das pontes e as águas do Capibaribe, na sua última curva, que aos poucos vai morrendo no mar, numa simbiose perfeita. Aos poucos vou entendendo, aos poucos vou sabendo e compreendendo a cidade.

Imagens do Marco Zero. Protagonistas da cidade, as pessoas. Ao fundo obras de Brennand. Foto: Roque Samudio

O “Acordar” e a “escuridão

Aprendi nessa observação que, ao nascer do sol, em plena madrugada, a cidade ainda vazia faz um gesto de se espreguiçar.

Vai abrindo os olhos através das janelas dos edifícios que refletem os primeiros raios de luz e, ainda vazios, aos poucos, vai sendo ocupada por seu elenco permanente ou casual que vai surgindo desde as pontes ou dos próprios edifícios, lentamente ao princípio, e vai se acelerando aos poucos até voltar à sua normalidade cotidiana.

O barulho, aos poucos, vai crescendo e tomando conta de todos os espaços. As portas de enrolar, numa espécie de rufar de tambores, se abrem quebrando o silêncio num claro sinal de que a vida recomeça.

Em pouco tempo outros ruídos se somarão, motores, buzinas, e sirenes, numa confusão insólita que quase todos, semi-anestesiados pela rotina diária, já nem se apercebem.

A escuridão da noite deu lugar ao sol, ou à chuva, e em ambos os casos a cidade se apresenta diferente.

“O conhecer”

Preciso continuar para reconhecer e aprender a cidade. Ela acordou ou a acordaram. As pessoas, quase autômatos, de olhos esbugalhados, apressadas, partem para algum destino.

Sou atropelado por alguns que vão perdendo a hora, enquanto outros, em quem fixo o meu olhar, me oferecem um sorriso sem graça como saudação, de outros recebo um desconfiado gesto de bom dia e, ainda outros, nem percebem minha presença.

O ambiente se enche com o cheiro de café… Sim, está na hora do café. Os cheiros se misturam somando-se aos barulhos, frutas, fumaça de carros, maresia.

Os “desconhecidos e os conhecidos”

Alguém sacode minha calça, é uma criança pedindo uma moeda, enquanto os moradores das praças abandonam os pisos e bancos que lhes serviram de cama durante a noite, acordando para o pesadelo diário e começando o dia já sem esperanças. 

Em pouco tempo tudo ferve e, alheio a todo o rebuliço crescente, continuo minha caminhada com meu olhar fincado em cada edifício, nas cores, espaços, volumes e nas pessoas. Passo despercebido, só quero olhar e poder ver.

Por décadas andei por estas mesmas ruas de cabeça baixa ou muito levantada, olhando as calçadas de lajotas e mosaicos de pedras portuguesas ou olhando para o céu, procurando algum óvni ou tratando de descobrir alguma nova estrela. 

 

A luz e a sombra, a presença ou ausência das pessoas e máquinas modificam as feições da cidade. Fotos:Roque Samudio 

Acima da linha do horizonte

Dou-me conta então que sempre olhei, no máximo, até a altura dos meus olhos sem perceber que, um pouco mais acima da minha linha de horizonte, existia outro mundo. Começo a ver a mesma cidade que se ofereceu sempre aos mesmos olhos e se entrega novamente agora, nova e elegante e vejo o quanto havia perdido, porém ainda estou a tempo de aprender suas manhas.

Imagino quanto tempo passou desde o primeiro tijolo assentado nesta terra, ou mesmo antes da primeira alteração da paisagem ainda virgem. Quantas pessoas, quanta história contribuindo para edificar o que tenho à minha frente.

Olhando para essa paisagem urbana descubro que é possível construir sua história.

As paredes falam… há nelas os rastros do passado que falam conosco ou os vazios de edifícios ausentes que nunca conheceremos. Precisamos ser mais curiosos.

A arquitetura

Entre os edifícios coloniais surpreende uma arquitetura alheia à essa paisagem. Aos poucos vou entendendo que por trás das fachadas ainda existem espaços de séculos passados, esperando algum olhar, alguma ajuda, envergonhadas de ausência e abandono. 

Outras se perderam definitivamente, foram demolidas umas, ruíram outras, dando lugar a um pátio baldio, abandonados ou tomados pelos menos privilegiados, marginalizados mostrando a outra realidade que a cidade nunca pensou ter.

Outros edifícios vão mudando de função. Eram em princípio grandes armazéns, posteriormente demolidos e reconstruídos para usos diferentes dos originais. Outros ainda se encontram em pleno processo de requalificação e, aos poucos, irão se converter em elegantes lojas, museus ou moradias exclusivas para os mais privilegiados. 

Que alegria entender que os sobrados se mostram com todos seus detalhes, trazidos na travessia do tempo em que, o próprio tempo, tinha outro ritmo, de parcimônia, onde a elegância era a regra.

Onde os atropelos entre as pessoas não existiam, nem existia a pressa.

Onde os cumprimentos eram francos, com gestos leves de chapéus, de flexões de pescoços ou de joelhos num gesto de bom dia somando-se a este o gesto de um sorriso amável.   

Não conhecia a cidade, reconheço que apenas a atravessava, vez por outra, alheio a ela, à sua realidade, à sua mutabilidade originada no próprio homem.

A cidade em permanente metamorfose. Imagens da mesma rua, contemporaneidade e diferenças. Fotos: Roque Samudio

A cidade ao  seu tempo

Percebi que à noite, a profundeza do silêncio e da escuridão é tanta, que nos permite ouvir murmúrios de vozes irreconhecíveis em todos os idiomas, de bêbados e namorados, de navios invisíveis atracando, de aplausos afogados pelas luzes tênues nas madrugadas e algum gato furioso rugindo rasgando o silêncio da noite, assustando as corujas dormidas nas cúpulas das igrejas.

Durante o dia ela ferve num ir e vir descontrolado de máquinas e pessoas, longe da calma noturna que a antecedera. Vi que em dia de chuva ou num domingo, a cidade é outra, outro o tempo, como num tempo paralelo, vazia onde apenas o eco de repentinos gritos rebate nos sobrados de todas as esquinas.

Tudo muda e a mudança não está apenas nas mãos do tempo, ela está principalmente em nossos olhos e naqueles que justificam a sua existência: as pessoas.

A cidade nos oferece tantas caras, tantos momentos e movimentos, tantas histórias que àquela pergunta inicial ofereceria como resposta outras perguntas: Que cidade? Que momento da cidade? Que lugares da cidade…? Eu conheci quase todas. 

A mesma cidade, a mesma praça, tempos diferentes em horários diferentes. Fotos: Roque Samudio (foto 1) e reprodução internet (foto 2)

Tudo o que vivi por estas horas já fazem parte da história.

Algumas deixarão lembranças e outras simplesmente ficarão como aconteceram e, em completo anonimato, desaparecerão.

          

* Roque Samudio é Arquiteto-Urbanista. Especialista em Conservação de Monumentos 

 

 

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Roque Samudio

Roque Samudio é arquiteto-urbanista formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Especialista em Patrimônio Histórico e Cultural. É arquiteto especialista em Patrimônio da Secretaria Nacional de Cultura do Governo do Paraguai.

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