Biodiversidade do Rio Goiana afetada por acidente ambiental

Por Anthony Santana, da UFPE

Estudo desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que monitorou o Rio Goiana, na Mata Norte de Pernambuco, estimou o impacto de um desastre ambiental ocorrido, em 2018, no local e constatou, por meio de testes de genotoxicidade, que isso afetou diretamente a integridade do ambiente e a biodiversidade da área, chegando a causar tumores malignos em peixes. Isso está demonstrado na dissertação de mestrado “Diagnóstico e monitoramento do rio Goiana (PE-Brasil), por parâmetros de danificação genômica, após acidente ambiental“, de Demetrios Silva, defendida este ano e que teve orientação da professora Mônica Lúcia Adam.

O estrago do meio ambiente local foi causado pelo derramamento de vinhoto no leito do rio de forma acidental, pelo transbordamento do reservatório de uma empresa. Essa substância é um resíduo malcheiroso excedente do processo de transformação da cana-de-açúcar em etanol e com poder de poluição maior que o esgoto sanitário doméstico.

Espécie como Bagre Branco, abundante no estuário, foi a mais atingida, segundo o estudo . Foto: Divulgação UFPE

Logo após o acidente, o estuário do Rio Goiana, no município de Goiana, foi monitorado por dois anos, no período que compreende de fevereiro de 2018 a fevereiro de 2020, em que mensalmente eram coletados materiais biológicos (sangue, brânquias e fígado) de peixes de quatro espécies, com destaque para a Aspistor luniscutis, mais conhecida como Bagre Branco, que é abundante no local.

Câncer nos animais

Por se tratar de uma área estuarina, o local é propício para a reprodução de peixes tanto de água doce quanto marinhos, o que significa dizer que é um ambiente rico em biodiversidade. No entanto, o impacto causado pelo vinhoto na água, que ocasionou diminuição do oxigênio, mudanças de temperatura, do pH e de outros fatores que mantinham ali um verdadeiro berçário natural de peixes, gerou consequências como a redução da reprodução e a variação no tamanho dos animais.

Segundo aponta o pesquisador, alguns organismos animais são bastante sensíveis a mudanças bruscas como essas, razão pela qual houve registro inclusive de morte de peixes na área. Os testes que avaliam o impacto dos compostos químicos no gene dos seres vivos, denominados de genotoxicidade, indicaram que o descarte irregular de vinhoto no Rio Goiana chegou a causar câncer em alguns animais, sendo essa uma das principais constatações do estudo.

As amostras foram analisadas nos laboratórios do Departamento de Zoologia do Centro de Biociências (CB) da UFPE, no Campus Recife, por meio da metodologia de ensaio micronúcleo, que é capaz de detectar macrolesões no genoma, isto é, se as células do gene dos animais têm lesão no seu núcleo. Outros dados tiveram importância para o resultado do trabalho, como a temperatura, índices pluviométricos e até os relatos dos pescadores locais.

“Através dos estudos das lesões genômicas, é possível observar alterações em ambientes naturais e também utilizar uma diversa variedade de organismos bioindicadores, porque o DNA é algo comum a todos os seres vivos e, através dessa informação, que é bastante sensível, a gente pode inferir possibilidades sobre um ambiente, [saber] se ele se encontra perturbado ou estável.”, explicou o pesquisador Demetrios Silva, em relação à metodologia aplicada.

O estuário do Rio Goiana

O Rio Goiana teve sua biodiversidade afetada/ Foto: CPRH

O Rio Goiana, que banha 26 municípios de Pernambuco, está dentro de uma região de proteção ambiental, a Resex, que é uma reserva do tipo extrativista, ou seja, uma reserva ambiental que pode ser explorada pelos moradores locais de forma artesanal e sustentável.

Com o desastre, a população local teve prejuízos na geração de renda e, inclusive, na própria saúde. Para se ter uma ideia, o rio demorou cerca de um ano e meio para recuperar a biodiversidade perdida em razão do acidente, conforme apontado por Silva.

“A dissertação contribui tanto para preservação desse ambiente e das espécies, de todo o contexto biológico ali, mas também para conservação que garante também subsistência da população ribeirinha local porque eles dependem extremamente desse ambiente, tanto que parte dos alimentos que eles consomem vem do rio e também parte da renda vem dos produtos que eles tiram do rio através do comércio, venda na feira local “, avalia o pesquisador.

“Essa dissertação é muito importante tanto para mensurar o acidente, depois que ele ocorreu, o que causou no rio e quanto tempo levou até o rio se restaurar, ou seja, voltar ao seu estado natural, como também proteger a biodiversidade e também garantir a saúde da população ribeirinha local, pois uma vez que um ambiente está preservado, isso também garante um pescado de qualidade para a população para que ela não consuma nada contaminado”, reforçou o pesquisador.

*Fonte: Ascom UFPE

Foto destaque: Centro Escola Mangue

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Redacao EJ

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